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Semana Internacional do Cérebro: À mesa, com os cinco sentidos

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A comida foi apenas um pretexto para ficarmos a saber que os micróbios do intestino conversam com o cérebro e que as grávidas preferem comida salgada. Bem-vindos à Semana Internacional do Cérebro

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

O Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, recebeu um jantar com 90 pessoas que puseram os seus cinco sentidos à prova
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O Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, recebeu um jantar com 90 pessoas que puseram os seus cinco sentidos à prova

Vera Menino

Morangos com chocolate e picante
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Morangos com chocolate e picante

Vera Menino

Espuma rosa com sabor a limão
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Espuma rosa com sabor a limão

Vera Menino

de olhos vendados, os 90 inscritos no jantar desafiaram os seus sentidos, pois no prato nem tudo era o que parecia
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de olhos vendados, os 90 inscritos no jantar desafiaram os seus sentidos, pois no prato nem tudo era o que parecia

Vera Menino

Pizzas de cores, com massa normal mas corada artificialmente
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Pizzas de cores, com massa normal mas corada artificialmente

Vera Menino

Alga com sabor a ostra e ovo 100 anos, uma iguaria chinesa
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Alga com sabor a ostra e ovo 100 anos, uma iguaria chinesa

Vera Menino

Ovo 100 anos, uma iguaria chinesa
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Ovo 100 anos, uma iguaria chinesa

Vera Menino

Gelatina vermelha de ananás
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Gelatina vermelha de ananás

Vera Menino

Tubos de ensaio com essências de diversos sabores
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Tubos de ensaio com essências de diversos sabores

Vera Menino

Por uma noite, a entrada principal do Pavilhão do Conhecimento Ciência Viva transformou-se numa espécie de sala de casamentos. Noventa convidados distribuiram-se por mesas redondas, para viver uma experiência com muito de ciência e uns pozinhos de gastronomia. Durante a desgutação de um menu de 21 pratos, preparado pelos chefes de cozinha Sofia Morais Pinto e Frederico Guerreiro, três cientistas Maria Eugenia Chiappe (Fundação Champalimaud, European Research Council), Carlos Ribeiro (Fundação Champalimaud) e Rui Oliveira (Instituto Gulbenkian de Ciência, Instituto Superior de Psicologia Aplicada) –, analisaram a forma como o nosso cérebro reage a diferentes estímulos e os integra como uma aprendizagem.

Quando nos sentamos à mesa para comer, o paladar é primeiro sentido que esperamos pôr à prova. Mas esta é apenas uma parte da história. Com um prato à frente, pomos à prova a visão ("os olhos também comem", já diz o ditado); o olfato basta lembrar como fica desenxabida a comida quando se nos entope o nariz; o tacto quem é que nunca precisou de tocar num alimento desconhecido antes de se atrever a levá-lo à boca?

Na primeira parte do jantar, testamos a forma como a audição também pode influenciar a forma como se saboereia a comida. Música rock pode levar-nos a comer mais depressa, música clássica emociona-nos e pode sobrepor-se ao prazer da boca. Oportunidade para recordar uma estratégia adotada em centros comerciais dos Estados Unidos, em que os donos dos restaurantes podem pagar para que a música dos altifalantes do centro seja italiana, mexicana ou country, para influenciar, a seu favor, a escolha dos clientes, contou Rui Oliveira.

Carlos Ribeiro lembrou logo que as escolhas alimentares podem ser condicionadas também pelos micróbios que habitam o nosso intestino e que "falam com o cérebro", influenciando a forma de comer. Durante a gravidez, explicou o cientista da Fundação Champalimaud, as hormonas condicionam o apetite da grávida. "Como estão a ser produzidas milhares de células, aumenta a necessidade de sal (elemento essencial ao funcionamento de cada célula). A hormona prolactina provoca alteração no paladar e leva as mulheres grávidas a preferir comidas mais salgadas," contou. É também por esta razão que manadas de elefantes fémeas percorrem dezenas de quilómetros à procura de minas de sal.

A dada altura, Inês Oliveira, bióloga e organizadora do jantar, dá indicações aos convidados para vendarem os olhos. Às cegas, provamos uma folha que sabe a mar, uma espécie de gelatina com gosto a ovo e um quadrado de fruta que ninguém consegue identificar. Já de olhos destapados, percebemos que nos tinham posto à frente folha de ostra, ovo cem anos (uma iguaria chinesa que consiste num ovo que passou semanas enterrado numa cama de argila) e jaca, um fruto tropical com sabor enjoativo. "No cérebro construímos uma representação do mundo à nossa volta e mesmo de olhos fechados sabemos o que é uma colher, um prato e orientar-nos. No fundo, conseguimos construir uma imagem a partir dos outros sentidos", reflete Maria Eugenia Chiappe.

No final do jantar, a barriga estava cheia. Mas o que mais trabalhou foi o cérebro. Estava aberto o apetite para degustar a Semana Internacional do Cérebro, que decorre até 18 de março, nos principais centros de investigação e de divulgação do País.