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'Eu, Tonya': Quebrar o gelo com os patins

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A escandalosa história da patinadora norte-americana Tonya Harding convertida num filme que é uma hilariante tragédia. Eu, Tonya, de Craig Gillespie, tem três nomeações para os Oscars

D.R.

Início dos anos 90. O caso deixou o mundo do desporto em choque. Alegadamente, uma atleta mandou partir a rótula a uma companheira para facilitar a classificação dela para os jogos olímpicos. Isso ainda se tornou mais surpreendente por se tratar de patinagem artística, um desporto na antítese da violência física, de fina delicadeza, que se confunde com bailado, em que as patinadoras, de alguma forma, procuram o belo – e, também por isso, praticada pelas elites. A incrível e triste história de Tonya Harding, cisne negro da patinagem norte-americana, é contada de forma muito original neste filme de Craig Gillespie, com três nomeações para os Oscars.

Gillespie recorre a um dispositivo ousado. Serve-se dos depoimentos originais de Tonya e seu marido, Jeff Gillooly, para criar uma falsa reportagem em que as personagens são entrevistadas diretamente para a câmara. Tal é intercalado com a ação propriamente dita, onde acompanhamos Tonya desde a infância. E então percebemos que a sua história é, na essência, uma história de violência. Um talento nato para a patinagem mas completamente fora do meio − as suas colegas, competidoras, vêm de uma classe social e económica mais favorecida −, e com uma mãe obstinada e pouco afetuosa que lhe batia na infância e na adolescência. O marido continuou a fazê-lo, tornando a violência uma marca contínua e quotidiana na vida da patinadora.

Eu, Tonya cruza drama com comédia, apostando na construção quase caricatural das personagens: a frieza impávida e manipuladora da mãe; a linguagem de violência entre Tonya e Jeff; e a personagem mitómana e megalómana de Shawn, que acaba por ser mostrado como o cabecilha do desastroso plano para apurar Tonya para os Jogos Olímpicos. O filme também nos obriga a uma reflexão sobre a (des)igualdade de oportunidades nos EUA de todos os sonhos. O mundo não é feito para Tonyas e o seu oitavo lugar em Lillehammer vale ouro.

Eu, Tonya > de Craig Gillespie, com Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Paul Walter Hauser > 120 minutos