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A exposição 'Poetry as Art as Poetry', de Pedro Proença, é uma tragicomédia luso-grega

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Pedro Proença regressa, na exposição Poetry as Art as Poetry, com novas paródias filosóficas e manifestos artísticos. Desta vez, saem de uma obra-livro para ocupar paredes inteiras da Fundação Portuguesa das Comunicações, em Lisboa, até 23 de fevereiro

Nesta exposição, produzida fora de portas pela Galeria Bessa Pereira, Pedro Proença adapta o livro Poetry as Art as Poetry

Nesta exposição, produzida fora de portas pela Galeria Bessa Pereira, Pedro Proença adapta o livro Poetry as Art as Poetry

Num tempo em que tanto se fala de fake news, há quem se ocupe mais das “Fake Quotes” − expressão que é uma das obras murais que partem do livro digital Poetry as Art as Poetry onde foram compiladas falsas instalações concebidas pelo artista plástico sob o pseudónimo (ou alter ego) de John Rindpest. Isto é, João Peste Bovina, inusitada alusão à fatal doença do gado já mencionada num papiro com três mil anos (reza a Wikipedia...).

Uma peça mais a acrescentar ao elaborado jogo de referências, subtextos e anedotas filosóficas que Pedro Proença baralha como ninguém, e que sublinha as reflexões pictóricas e historicistas que ocupam a sua prática habitual, a que sempre dá uma camada extra de irreverência. Nesta exposição, produzida fora de portas pela Galeria Bessa Pereira, o artista adapta esse livro, expandindo-o para o espaço real da galeria, ocupando e transfigurando as paredes numa arena tipográfica − ou numa gigantesca enciclopédia, que nos faz contemplar entradas de dicionários gregos, frontispícios ampliados, poemas dispersos, desenhos ornamentados, frases (silogismos, aforismos, fake quotes...) que rompem ou atravessam as molduras que as tentam conter − uma contaminação espacial já testada pelos desenhos barrocos, a preto e branco, com que Pedro Proença se impôs nos anos 1980 e 1990.

A matriz da Grécia não poderia ser uma ambição mais nobre, e a ars poetica ganha, aqui, um grande gesto... Toda esta “promiscuidade” entre arte e texto é uma prática com epígonos experimentalistas e intenções revolucionárias. Aliás, a velha interrogação sobre o que é ser artista − um anticânone que ecoa o apontamento sobre Dionísio, deus da Antiguidade, protetor dos que estão além das convenções − é um tema fértil que o artista gosta de explorar. Aqui, fá-lo também através de um livro de mandamentos impresso numa parede de canto, em que se lê, por exemplo, que “o artista torna-se mais artista por ter desistido de ser artista (é um Bartleby)”.

Poetry as Art as Poetry > Fundação Portuguesa das Comunicações > R. do Instituto Industrial, 16, Lisboa > T. 21 393 5177 > Até 23 fev, seg-sex 10h-18h, sáb 14h-18h