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'Pop Aye': Um filme 'on the road' ao ritmo das passadas de um elefante

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A história de um homem em período de decadência e reflexão existencial que busca, na companhia do seu elefante, conforto nas memórias. Pop Aye, primeira longa-metragem da realizadora Kirsten Tan, já estreou nas salas de cinema

'Pop Aye', primeira longa-metragem de Kirsten Tan, tem feito um percurso notável, recebendo prémios em prestigiosos festivais internacionais, incluindo Sundance e Roterdão

'Pop Aye', primeira longa-metragem de Kirsten Tan, tem feito um percurso notável, recebendo prémios em prestigiosos festivais internacionais, incluindo Sundance e Roterdão

D.R.

Havia um escritor que dizia que o segredo do realismo mágico da América Latina é ser apenas realismo, pois a realidade envolvente é tão forte e extraordinária que basta observá-la para encontrar a magia. O mesmo pode aplicar-se a muitas cinematografias. Um certo estar exótico é o suficiente para chamar a atenção e criar fascínio, base sobre a qual tudo se constrói mais facilmente. É nitidamente o caso desta longa-metragem de estreia da realizadora singapurense Kirsten Tan que tem deliciado espectadores em todo o mundo. Basta pensar que a ideia de ter um elefante de estimação é totalmente absurda para um ocidental mas perfeitamente plausível no sudoeste asiático.

Pop Aye conta a história de um homem em período de decadência e reflexão existencial. Nessa encruzilhada da vida, em que tudo se desfaz, busca, com uma serenidade oriental, conforto na infância, nas memórias. Deambulando, encontra-se surpreendentemente com um elefante, que reconhece como sendo Pop Aye, o seu amigo de infância, que vendeu quando se fez à cidade de Banguecoque − aquela que engole as pessoas para mais tarde as deitar fora, quando se tornam desnecessárias. Compra de volta o animal e inicia uma longa viagem até à extremidade oposta do país, à vila onde nasceu. Um on the road ao ritmo lento das passadas dos elefantes. Marcante no filme é, precisamente, o fator tempo. Não só pela inevitável lentidão do percurso, mas também pela estrutura cronologicamente livre da própria narrativa.

Simbolicamente, a imagem do elefante não poderia ser mais contundente. Por cá, fala-se de memória de elefante. E o que, na verdade, o elefante Pop Aye carrega são as memórias da personagem e indica uma vida ilusória para as resgatar. Além da paisagem luxuriante, há histórias que se contam pelo caminho. E a viagem, como se quer, serve de redenção e rejuvenescimento sentimental.

Pop Aye > de Kirsten Tan, com Thaneth Warakulnukroh e Penpak Sirikul > 104 minutos