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Os céus fotografados em 'Luz Cega', por Cláudio Garrudo, são azul-transcendente

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Cláudio Garrudo regressa com um projeto fotográfico site-specific baseado num imenso azul: o do eterno firmamento celeste e o da antiga e virtuosa técnica da cianotipia. Luz Cega está em exposição na Travessa da Ermida, em Lisboa, até 21 de fevereiro

As fotografias de Luz Cega foram impressas em papel de algodão, um material que também pode reclamar uma dimensão temporal. “O próprio papel tem alma e ajuda à obra final”, defende o fotógrafo Cláudio Garrudo

As fotografias de Luz Cega foram impressas em papel de algodão, um material que também pode reclamar uma dimensão temporal. “O próprio papel tem alma e ajuda à obra final”, defende o fotógrafo Cláudio Garrudo

“Um fotógrafo que fotografa o céu é sempre um Prometeu à espera de um fogo, de uma luz, de uma sombra para roubar.” A bela descrição, escreve-a José Manuel dos Santos, curador e diretor cultural da Fundação EDP, para o catálogo desta Luz Cega, a exposição que o fotógrafo (e editor e programador cultural) Cláudio Garrudo criou para a ermida velha de três séculos – um espaço de antigo culto em Belém, cuja “eternidade”, recolhimento e religiosidade ainda pressentidos sugerem muitas ligações para estas fotografias de céus luminosos. Revelam-se assim: uma obra única desconstruída em nove imagens ocupa o antigo altar, a que se acrescentam mais sete fotografias dispostas circularmente como a abóboda celeste – de uma destas, uma pequena cianotipia, existirá uma edição especial com 50 exemplares assinados e numerados. É uma obra resultante de uma espécie de peregrinação de Cláudio à vereda do Fanal, em plena floresta laurissilva na ilha da Madeira: “Caminhei sempre até chegar ao ponto mais elevado, de onde só via o mar aos meus pés. Um lugar de parar o tempo”, descreve.

A luz que emana destes céus intensamente azuis transfigura-os em obras abertas: recordam genealogias pictóricas, seja o surrealismo de Magritte ou as manchas de Monet, sentimentos de universalidade, memórias, manifestações divinas. Mas também existem outras leituras possíveis: “Há uma crítica implícita à religião: se seguirmos cegamente o culto, essa também é uma forma de cegueira.” Mas ao artista, que reclama uma espiritualidade sem deus, interessou sobretudo explorar a dimensão da contemplação e lentidão. O que explica a sua escolha da técnica de impressão lenta da cianotipia (descoberta em 1842 pelo astrónomo Sir John Herschel). Há que abrandar, observar, descobrir. Até porque, regressando a José Manuel dos Santos, “o céu é apenas um outro chão para andarmos nele ao contrário”.

Luz Cega > Travessa da Ermida > Tv. do Marta Pinto, 21, Lisboa > T. 21 363 7700 > 7 jan-21 fev, seg-sex 11h-13h/14h-17h, sáb-dom 14h-18h