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'O Sacrifício de um Cervo Sagrado': O pior pesadelo no novo filme de Yorgos Lanthimos

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O cineasta grego Yorgos Lanthimos fez um filme perturbador na senda de Lars Von Trier, Roman Polanski ou Michael Haneke. O Sacrifício de um Cervo Sagrado, com excelentes interpretações de Nicole Kidman, Colin Farrell e Barry Keoghan, já está nas salas de cinema

'O Sacrifício de um Cervo Sagrado' é a segunda experiência “americana” do realizador grego Yorgos Lanthimos. Em 2015, havia realizado 'A Lagosta', também com Colin Farrell no principal papel

'O Sacrifício de um Cervo Sagrado' é a segunda experiência “americana” do realizador grego Yorgos Lanthimos. Em 2015, havia realizado 'A Lagosta', também com Colin Farrell no principal papel

D.R.

Segundo o texto bíblico, do livro dos Génesis, no momento exato em que Abraão se preparava para sacrificar o seu filho, como se fosse um cordeiro, amarrado e colocado sobre o altar, para assim demonstrar a enormidade da sua fé, o anjo do Senhor prendeu-lhe a mão que segurava o cutelo, evitando a chacina. Yorgos Lanthimos não será tão generoso. Em alguns momentos de O Sacrifício do Cervo Sagrado, o realizador grego faz parecer Lars Von Trier um menino de coro. Noutros, percebe-se a fórmula, o choque pelo choque, o caminho mais fácil, e muitas vezes injustificável (como o segredo que Steven revela ao filho).

O Sacrifício de um Cervo Sagrado é um filme de terror, um dos mais aterrorizantes do ano. Mexe com os nossos receios mais íntimos, coloca-os num patamar vertiginoso. E nada disso é condenável per si. Aliás, faz parte das regras do jogo. Lanthimos, em vez de nos impressionar com jorradas do sangue, sádicos homicidas ou monstros apocalípticos, agride-nos com os nossos medos mais profundos. Para se tornar mais eficaz, serve- -se do paranormal, o que lhe cria alguns buracos no argumento – o que também é típico do género.

Lanthimos sabe filmar. Tem um conceito, uma estética, consegue criar uma atmosfera. Sabe usar ostensivamente a música clássica para cumprir os seus propósitos. Assim como uma certa contenção dos atores, que tornam o filme, desde o início, intrigante. O melhor do filme é isso tudo. O olhar, os movimentos de câmara. A introdução das personagens, da família aparentemente perfeita ou meramente funcional.

Cresce lentamente a sensação de que “há algo de podre no Reino da Dinamarca”. E há mesmo. Só que a deriva terrorífica da segunda parte do filme nada tem que ver com essa podridão, não tem qualquer ligação com a mulher que se faz de morta para excitar o marido nem com o anestesista que troca uma informação de um paciente por um felácio. Isto diz sobre a linha de escrita de argumento de Lanthimos: uma deriva altamente manipulatória, nunca se escusando a acrescentar pormenores bizarros (normalmente de índole sexual), muitas vezes fora do contexto, que servem para tomar o espectador através de uma onda de pequenos choques. O final, irrevelável, é apenas o aumento brutal da carga elétrica, para ter a certeza de que o público sai da sala aos tremeliques. Continuamos a preferir a deriva lynchiana dos seus primeiros filmes. Não obstante, excelentes interpretações de Nicole Kidman, Colin Farrell e Barry Keoghan.

O Sacrifício de um Cervo Sagrado > de Yorgos Lanthimos, com Nicole Kidman, Colin Farrell e Barry Keoghan > 121 min