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'A Liberdade do Diabo': A face oculta do México

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A violência extrema dos cartéis de droga num filme-denúncia, de um realismo aterrorizante. A Liberdade do Diabo, de Everardo González, já chegou às salas de cinema

No México, há assassinatos de 20 em 20 minutos, além de inúmeros casos de tortura, rapto, extorsão. Ao lado do paraíso balnear de Cancun, fica um tenebroso e violento país dominado pelos cartéis da droga

No México, há assassinatos de 20 em 20 minutos, além de inúmeros casos de tortura, rapto, extorsão. Ao lado do paraíso balnear de Cancun, fica um tenebroso e violento país dominado pelos cartéis da droga

É um filme de terror. Só que, em vez de ser rico em efeitos especiais, pregar pequenos sustos, puxar pela imaginação do argumentista, 
A Liberdade do Diabo é um documentário realista, que nos assusta e indispõe, pela realidade que relata e não mostra. Mesmo ali ao lado do paraíso balnear de Cancun, não muito longe da cosmopolita e imensa Cidade do México, fica o outro país, oculto e inacessível a viajantes, onde há décadas que se alastra a barbárie. Uma dimensão insana de violência que ombreia em requinte com as atrozes execuções do Estado Islâmico, mas que largamente as supera em quantidade. Um país dominado pelos cartéis da droga com uma população vítima dos criminosos, mas também muitas vezes da polícia e dos militares que a deviam proteger.

Tudo isto é retratado e denunciado em A Liberdade do Diabo. O documentário de Everardo González gera amargura e indignação idênticos a Água Prateada, de Usama Muhammad e Wiam Simav Bedirxan (relato interior da guerra da Síria). Só que González não chega a entrar nos campos de batalha. Tudo cresce à volta daquilo que não se vê.

Com um estilo sóbrio e minimalista semelhante a Susana Sousa Dias, em 48 (sobre as vítimas da PIDE-DGS), González coloca-nos frente a frente com as vítimas do flagelo. Por um lado, há os pais e os filhos com familiares desaparecidos, num sofrimento insano, e os inocentes torturados às mãos daqueles que os deveriam proteger; por outro, os homicidas, os torturadores, os militares e os polícias arrependidos, bestas engolidas por um sistema de banalização da crueldade. São percorridos todos os ângulos, de nenhum se avista uma saída.

As testemunhas, que nos confrontam em frente à câmara, têm a cara tapada por uma espécie de passa-montanhas. Tal não serve apenas o propósito de lhes proteger a identidade. De alguma forma, desfigurando-lhes o rosto, está a chamar a atenção para o processo de desumanização de que foram vítimas. Aquele já não é o território de seres humanos, nem sequer de animais: é a 
terra do diabo. E quando no final uma das testemunhas retira a máscara e dá a cara é como se brutalmente nos revelasse: “Somos homens e mulheres como tu”.

A Liberdade do Diabo > de Everardo González > 74 min