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'Derradeira Viagem': Os amigos de Larry

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As insaráveis feridas das guerras do Vietname e do Iraque, num filme de Richard Linklater, sobre amizade, verdade e trauma. Derradeira Viagem já está nas salas de cinema

Em Derradeira Viagem, Larry, que perde o filho no Iraque, depois de já ter perdido a mulher por doença, desesperadamente só, mas de uma serenidade absoluta, parte em busca dos velhos camaradas

Em Derradeira Viagem, Larry, que perde o filho no Iraque, depois de já ter perdido a mulher por doença, desesperadamente só, mas de uma serenidade absoluta, parte em busca dos velhos camaradas

Richard Linklater, autor de algumas das mais fascinantes experiências cinematográficas, como a trilogia Antes do Amanhecer ou o desafio hiper-realista Boyhood, constrói um filme que fala sobre amizade e remexe nos traumas de guerra americanos. Derradeira Viagem, que recupera personagens de O Último Dever, de Hal Ashby, obedece a uma estrutura de argumento semelhante à de Amigos de Alex, de Laurence Kasdan.

Um acontecimento trágico, no caso a morte de um filho no Iraque (na guerra pós-11 de setembro de 2001), é pretexto para um reencontro de amigos, no caso ex-combatentes do Vietname, que não se viam há décadas. Há o renascer de um espírito solidário, perante a tragédia vivida por Larry. Mas há também a recordação dos velhos tempos e, em simultâneo, um inevitável ajuste de contas, sobretudo moral, com o passado.

Larry, que perde o filho no Iraque, depois de já ter perdido a mulher por doença, desesperadamente só, mas de uma serenidade absoluta, parte em busca dos velhos camaradas. Encontra Sal, mais decadente ainda do que o bar que explora, sempre com grande frontalidade e disposto a encarar a verdade de frente; e Mueller, outrora a força bruta do regimento, transformado em padre protestante, sempre com um conselho prudente e muita fé em Deus. Os amigos, que o acompanham durante um longo e doloroso processo, sempre com posições antagónicas, funcionam como a vozinha de Deus e do Diabo que sopram ao ouvido. Ainda que por vezes, ironicamente, troquem de posição.

A questão de fundo aqui é até que ponto é que a verdade vale mais do que uma mentira piedosa. O Estado americano mente sobre as circunstâncias da morte do filho de Larry: ele afinal não morreu em combate, mas sim num ataque suicida enquanto comprava bebidas para os amigos. Essa desilusão com o Estado obriga Larry, e os amigos, a uma revolta e diáspora interior. Tal como em Os Amigos de Alex, esta perda acaba por fortalecer e rejuvenescer os seus laços e ajudar a digerir os traumas.

O filme está cheio de pormenores interessantes, como o primeiro contacto das personagens com telemóveis. Recorde-se que, em 2001, a “democratização” dos telemóveis ainda não estava consolidada, e a tecnologia era novidade para muitos americanos.

Apesar de não ser uma sequela no sentido clássico, o filme de Richard Linklater continua a história de O Último Dever (1973), filme de Hal Ashby, com Jack Nicholson no principal papel.

WILSON WEBB

Derradeira Viagem > de Richard Linklater, com Bryan Cranston, Laurence Fishburne e Steve Carell > 125 min