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'Na Penumbra': a exposição do fotógrafo Augusto Brázio é uma 'flânerie' visual

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Integrada nos Dias do Desassossego, esta nova exposição de Augusto Brázio reclama um olhar livre, e um diálogo utópico entre António Osório e Fernando Pessoa. Na Penumbra está na Galeria das Salgadeiras, em Lisboa, até final de janeiro

Augusto Brázio

Concedemos: é um exercício ingrato, obrigar um fotógrafo a esmiuçar em palavras o seu vocabulário visual. Mas o sol de sábado jorra das janelas à maneira de um projetor, e a metáfora da revelação fica facilitada. “Chego às 12 imagens patentes em Na Penumbra de forma muito livre. São as impressões que ficam dos meus dias, imagens-testemunhas”, conta Augusto Brázio. “Esse vaguear, esse movimento de andar, de encontrar e ser surpreendido pelo que encontro, é uma abordagem muito minha.”

O arquivo em contínua expansão deste fotógrafo, membro do coletivo Kameraphoto e vencedor do Prémio Fotojornalismo VISÃO/BES 2008, é o de um flâneur assumido. E a edição, a escolha do que se mostra, é essencial: “No fundo, quero criar uma narrativa mental.” Desta vez, fá-la com 12 imagens inéditas: um painel de seis fotografias, um díptico (a mesma imagem em preto/branco e a cores, problematizando a questão da manipulação das imagens), mais quatro imagens, duas destas de grande escala. Brázio vê-as como “uma pausa, um afastamento do lado documentarista” pelo qual é reconhecido. Há nuvens carregadas, fenos ondulados de que Alberto Carneiro teria gostado, três galgos que nos viram costas, jogos de luzes... Mistérios visuais, entre o cinematográfico e o bucólico, que nos remetem para um pathos, para um silêncio necessário, lança a curadora Ana Saramago Matos.

O fotógrafo perseguiu duas abordagens: “Uma, virada para a natureza e a contemplação, que acentua a viagem, o lado documental. Outra, é mais urbana, voyeurística: são stills do meu quotidiano, de realidades que frequento.” Ecoam outra dualidade: a dos universos de Fernando Pessoa e António Osório. “Tenho sempre por perto O Livro do Desassossego: leio umas páginas, pouso-o, volto... Já a relação com a escrita de Osório é diferente. Mas são dois autores a que regresso recorrentemente”, diz Brázio. As imagens, avisa, não são ilustrativas dos poetas. O lirismo, sim, é omnipresente.

Augusto Brázio

Na Penumbra > Galeria das Salgadeiras > R. da Atalaia, 12, Lisboa > T. 21 346 0881 > 25 nov-27 jan, ter-sáb 15h-21h