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'Peregrinação', de João Botelho: O barco vai de saída

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Depois de Livro do Desassossego e de Os Maias, João Botelho adapta ao cinema Fernão Mendes Pinto e a grande obra de aventura e de viagens da literatura portuguesa. Peregrinação já chegou às salas de cinema

O filme 'Peregrinação' inclui imagens do Vietname, China e Malásia, mas a maioria das cenas foi filmada em Portugal, entre Vila do Conde, o Jardim Botânico de Coimbra e o alto mar ao largo de Sesimbra, a bordo da Caravela Vera Cruz

O filme 'Peregrinação' inclui imagens do Vietname, China e Malásia, mas a maioria das cenas foi filmada em Portugal, entre Vila do Conde, o Jardim Botânico de Coimbra e o alto mar ao largo de Sesimbra, a bordo da Caravela Vera Cruz

João Botelho prossegue a sua missão impossível de transformar em cinema obras colossais e inadaptáveis da literatura portuguesa. Assim aconteceu com Filme do Desassossego (o mais inadaptável e o que melhor Botelho soube adaptar) e com Os Maias (bastante mais fácil, mas que se revelou redundante). E assim volta a acontecer em Peregrinação, o grande livro de aventuras português, de Fernão Mendes Pinto. Se Livro do Desassossego se tornava difícil por ser uma obra fragmentada, sem narrativa, em Peregrinação, a dificuldade é precisamente a oposta: há um excesso de narrativas que compõem o todo, o que torna a obra impossível de condensar. Botelho resolveu o assunto da única forma possível: selecionando episódios, pequenas partes, que nos fazem chegar à essência do todo. Essência esta que se baseia num retrato de personagem e numa leitura pessoal do realizador. Obviamente, não se trata da Peregrinação, mas de uma Peregrinação. Ainda mais do que a leitura, conta a releitura. A forma (ou as formas) que Botelho encontra para contar a história.

Encontramos o grande (anti)herói da história de Portugal. Uma figura simultaneamente humana, pela forma como expõe as suas fraquezas, e mítica, como sobrevive a mil e uma desventuras. E um homem feito de contradições, entre o bem e o mal: que tanto se deixa deslumbrar pelas civilizações que encontra como as vilipendia, é vítima e carrasco, confundindo-se mesmo com o corsário António de Faria. E, no final, já velho, retirado em Almada, é um homem amargurado pela falta de reconhecimento do povo e dos seus pares (Fernão, mentes? Minto).

Peregrinação é um filme cheio de riscos. Entre todos os riscos, o que melhor corre é o das cenas musicais. Botelho resgata temas da obra-prima de Fausto Por Este Rio Acima e adapta-os a polifonias, fazendo desta Peregrinação também um filme musical. A música está dentro da ação, são os próprios marinheiros que a cantam enquanto remam, numa espécie de coro grego que suspende, ou esclarece, o tempo narrativo.

A Peregrinação de Botelho conta com uma vasta equipa e um bom leque de atores, com destaque para Cláudio Silva que, depois da sua revelação em Filme do Desassossego, navega aqui com destreza em mar alto.

Peregrinação > de João Botelho, com Cláudio Silva, Jani Zhao, Catarina Wallenstein, Marcello Urgeghe > 96 minutos