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Banquete de bom cinema no Doclisboa

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Desde a retrospetiva da realizadora checa Vera Chytilová até aos últimos filmes de Wang Bing, Frederick Wiseman, Barbet Schroeder, Manuel Mozos e João Canijo, pelo festival Doclisboa passam dezenas de filmes que nos ajudam a pensar o mundo. A partir desta quinta, 19, e até dia 29, na Culturgest, São Jorge, Cinemateca Portuguesa e outros locais de Lisboa

Pequenas Margaridas, filmado por Vera Chitylová em 1966, é um filme descarado, ousado, irreverente, baseado em factos autobiográficos, que muitas vezes é apontado como referência para um certo cinema feminista

Pequenas Margaridas, filmado por Vera Chitylová em 1966, é um filme descarado, ousado, irreverente, baseado em factos autobiográficos, que muitas vezes é apontado como referência para um certo cinema feminista

1.
Competição 
 portuguesa

Os santos da casa fazem milagres, e a competição portuguesa revela-se um dos pratos fortes do festival, com 14 filmes, entre curtas e longas. 
O primeiro grande destaque é o regresso de João Canijo e Anabela Moreira, com Diário das Beiras. Depois de Portugal, Um Dia de Cada Vez, filmado em Trás-os-Montes, descem até às beiras, para um outro retrato do chamado “Portugal profundo”, com enfoque no olhar feminino. Paulo Abreu apresenta a longa I Don't Belong Here, um impressionante documentário sobre os emigrantes portugueses deportados pelos Estados Unidos da América para os Açores. António e Catarina, de Cristina Hanes, deu nas vistas em Locarno, e passa agora em Lisboa, focando uma relação ambígua e algo perversa entre um homem velho e uma jovem realizadora romena. Inês Oliveira também está de volta, com Vira Chudneko, relato íntimo feito a partir da notícia de uma ucraniana que foi morta por um rottweiler. E Nathalie Masoux, em Dom Fradique, coloca em confronto o Terramoto de 1755 e a atual avalancha de turistas em Lisboa.

2.
Vera Chitylová

Em Portugal e no mundo é conhecida sobretudo pelo seu emblemático filme Pequenas Margaridas, de 1966. Um filme descarado, ousado, irreverente, baseado em factos autobiográficos, que muitas vezes é apontado como referência para um certo cinema feminista. Foi também uma das vozes da resistência checa. Contudo, Chitylová é bastante mais do que isto. Uma realizadora profundamente eclética, que vagueou entre géneros e formatos, revelando uma imensa vontade em experimentar. Nesta extensa retrospetiva, com 33 filmes, encontram-se registos tão variados quanto A Bagful of Fleas, uma espécie de documentário encenado; Caterwauling, uma adaptação literária de Kafka; The Apple Game, uma comédia romântica; My Prague Understands Me, uma comédia à volta de Mozart; Something Different, que conta em paralelo uma história documental e outra ficcional.

3.
Quebeque

O cinema do Quebeque desenvolve-se na encruzilhada entre o possante mundo anglófono da América que o cerca e a necessidade de afirmação de uma cultura francófona própria e autónoma. Essa dicotomia torna a sua cinematografia bastante original, com soluções artísticas criativas e um universo peculiar. Esta retrospetiva, que se prolonga além das datas do festival na Cinemateca, mostra a diversidade de propostas produzidas por aquela região do Canadá. Em destaque, o cinema direto, sob influência de Jean Rouch, com filmagens entre as pessoas, de câmara ao ombro. Estilo criado para o documentário, mas que cedo os realizadores quebequenses passaram a aplicar também à ficção.

4.
Ramiro

O filme de abertura do Doclisboa não é um documentário, mas sim uma comédia. Ramiro, de Manuel Mozos, é uma história profundamente lisboeta, centrada na fascinante personagem de um alfarrabista e escritor oculto. Alguns traços aproximam-no de João César Monteiro, na redescoberta de uma Lisboa intemporal e no estilo do humor. Mas nota-se bem a mão de Mariana Ricardo, argumentista de Miguel Gomes e João Nicolau, que aqui trabalha com Telmo Churro na construção da narrativa. O filme só deverá estrear-se em sala em 2018, mas vale a pena ver já, pelo retrato que faz da cidade e pela forma como resgata a comédia à portuguesa para o patamar elevado que um dia teve.

5.
Bárbara Virgínia

Quem é Bárbara Virgínia?, o filme de Luísa Sequeira faz a pergunta e dá a resposta. Foi a primeira mulher portuguesa a realizar um filme. E também uma talentosa atriz. A realizadora resgata esta personagem histórica do cinema português, contando toda a sua história, de Lisboa à emigração no Brasil. E, em complemento ao documentário, são exibidos dois filmes de Bárbara Virgínia, de 1946: a curta Aldeia dos Rapazes e o que resta da longa Três Dias Sem Deus.

6.
Grandes estreias

O Doc também se faz de consagrados, que se encontram sobretudo na secção Da Terra à Lua. Wang Bing está em dose dupla, com os seus dois últimos filmes, que revelam mundos ocultos, de uma China inexplorada. Claude Lanzmann conta, em Napalm, a história de um encontro, em 1958, da primeira delegação da Europa à Coreia do Norte com uma enfermeira coreana. Frederick Wiseman viaja aos bastidores da New York Public Library, uma das maiores bibliotecas do mundo. Barbet Shroeder conclui a sua trilogia do mal, com The Venerable W, um filme sobre um terrificamente racista monge budista de Mianmar. 
E estreia-se ainda a sequela de Uma Verdade Inconveniente, seguida de debate, com a participação de Al Gore, através de videoconferência.

7.
Música

Dar filmes à música é um 
dos propósitos da secção Heartbeat, que cruza cinema com outras artes. Pode ser visto o último filme de Tiago Pereira, que viaja a Paris, ao encontro de um grupo de cante alentejano... francês. 
A atriz e realizadora francesa Sandrine Bonnaire desenha um difícil retrato de Marianne Faithfull. Sophie Fiennes convida-nos a conhecer Grace Jones. E Nick Broomfield e Rudi Dolezal falam-nos da ascensão e queda de Whitney Houston. Há filmes para todos os gostos, desde Bill Frisell, a Portait, sobre o músico de Jazz, a The Inertia Variations, sobre os The The, passando por Never Stops, sobre o tecno de Detroit ou Bamseom Pirates Seoul Inferno, sobre o movimento punk coreano.