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'Viagem a Espanha': Comer, rir e viver

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Depois de Viagem a Itália, Steve Coogan e Rob Brydon estão de volta num road movie de fazer crescer água na boca. Viagem a Espanha já está nas salas de cinema

Coogan e Brydon fazem um curto itinerário por terras de Espanha, entre monumentos históricos e restaurantes de elite, decidindo evitar os sítios mais óbvios, como a Catalunha e a região de Madrid

Coogan e Brydon fazem um curto itinerário por terras de Espanha, entre monumentos históricos e restaurantes de elite, decidindo evitar os sítios mais óbvios, como a Catalunha e a região de Madrid

Como alguém disse, Steve Coogan e Rob Brydon fazem admiravelmente bem de si próprios. E esta é a chave do êxito de Viagem a Espanha, que assume a autorrepresentação de tal forma, que nem altera os seus nomes no ecrã, provocando deliberadamente no espectador a confusão entre ator e personagem, como se de um falso documentário se tratasse. É uma técnica pós-moderna de narrativa ficcional, herdada, bem a propósito, de Cervantes que, como se afirma no filme, foi pós-modernista ainda antes da haver modernismo.

Coogan e Brydon repetem a fórmula do aclamado Viagem a Itália e fazem uma espécie de pequeno roteiro gastronómico e cultural, entre moinhos, turbinas e paradores, evitando, dizem eles, os lugares mais óbvios. É um road movie atípico. Pese o requinte das refeições, de fazer crescer água na boca, e a exuberância de alguns monumentos e paisagens, o percurso é demasiado superficial para que o filme possa ser levado a sério enquanto sugestão de roteiro gastronómico ou turístico. Até porque a viagem é curta e nada sistemática. Também não vive propriamente das peripécias de estrada.

O filme alimenta-se sobretudo dessa capacidade espontânea de fazer humor dos atores britânicos: que passa, muitas vezes, por pequenos sketches, onde fazem imitações de outros atores e personalidades públicas, de Mick Jagger a Marlon Brando, de David Bowie a Roger Moore. É assim uma celebração de um talento mimético e também, claro, da amizade.

O humor é inglês com a mais que snob das maneiras de viajar, que passa por desfrutar do meio em redor sem nunca se deixar envolver. É por isso que na construção da narrativa, ao contrário do que acontece em Dom Quixote, todos os altos e baixos são proporcionados por elementos exteriores à viagem: a namorada do filho que está grávida, o agente que o abandona, as crianças que têm saudades. É como se eles não estivessem ali. Espanha e os espanhóis são apenas um cenário e um contexto. A estrada não tem qualquer poder transformador. As notícias de mudança chegam todas pelo telefone.

Viagem a Espanha > de Michael Winterbottom, com Steve Coogan e Rob Brydon > 108 minutos