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'O Homem da Guitarra': Uma peça de teatro com acordes descendentes

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A musicalidade do tom tragicómico, com a ironia a mascarar a desilusão, de Jon Fosse, um dos autores noruegueses mais representados nos teatros internacionais, está no palco do Teatro Carlos Alberto, no Porto. O monólogo O Homem da Guitarra pode ser visto até domingo, 16

Manuel Wiborg é o encenador e o ator do monólogo O Homem da Guitarra

Manuel Wiborg é o encenador e o ator do monólogo O Homem da Guitarra

Álvaro Rosendo

As cordas da guitarra soltam-se aos poucos. Mas o discurso poético do músico de rua, desfeitos os sonhos de êxito e de reconhecimento, continua a ressoar depois dos acordes. Como a maioria das peças de Jon Fosse, considerado o maior dramaturgo norueguês depois de Ibsen, apesar de imbuídas de uma forma de sentir muito nórdica, está descarnada de referências de época ou de lugar. “Qualquer pessoa pode identificar-se com os seus textos, que se resumem a sentimentos, a sensações, a imagens”, sublinha Manuel Wiborg, encenador e ator do monólogo O Homem da Guitarra. “A peça não é só o homem da guitarra que não conseguiu ser um grande artista, salta para outro plano: o de uma população ativa com grande maturidade e experiência que está num limbo, não pode voltar ao passado e também não tem grandes perspetivas de futuro.”

Em miúdo, Jon Fosse tocava guitarra e, quando parou, começou a escrever. “Mas comecei a escrever tentando fazer uma espécie de música. Poucas palavras, repetições, variações, silêncios…”, descreveu o dramaturgo. Metade do texto de O Homem da Guitarra é cantado e Wiborg, aproveitando o facto de a personagem tocar apenas covers, escolheu melodias de três temas conhecidos, onde encaixa as 16 letras de canções.

Para o acompanhar em palco, chamou o amigo Adriano Sérgio, um músico atualmente dedicado ao registo de uma patente de guitarra elétrica, que construirá em cena um dos seus modelos, funcionando o som da lixa da madeira como um fundo musical e um segundo plano da encenação. “O som do Adriano está sempre a conduzir a minha representação”, explica o ator, de 49 anos, a interpretar o seu quarto monólogo. “Os primeiros três foram a convite, enquanto este ninguém mo trouxe, foi o monólogo que escolhi”, conta. Leu-o, pela primeira vez, em 2002, e identificou-se imenso com esta escrita musical e poética, que concede uma grande liberdade ao intérprete. “Chegou o momento de o fazer.”

O Homem da Guitarra > Teatro Carlos Alberto > R. das Oliveiras, 43, Porto > T. 22 340 1910 > 6-16 jul, qua/sáb 19h, qui-sex 21h, dom 16h > €10