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Os cortes e recortes de Catarina Branco

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Uma exposição no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, em São Miguel, nos Açores, faz uma retrospetiva do trabalho da artista plástica Catarina Branco. Para ver até final de julho

Pela primeira vez juntas no mesmo espaço, as peças que Catarina Branco criou nos últimos oito anos confrontam-se e refletem sobre o percurso da artista, dando-nos um olhar global sobre a evolução da sua obra

Pela primeira vez juntas no mesmo espaço, as peças que Catarina Branco criou nos últimos oito anos confrontam-se e refletem sobre o percurso da artista, dando-nos um olhar global sobre a evolução da sua obra

Rui Soares

Há uma figura, toda feita em papel, que nos recebe à chegada: uma espécie de monstro diabólico, colorido e simpático, mais festivo do que assustador. À escultura, Catarina Branco chamou-lhe Dádiva. É a sua peça mais recente, exposta na mostra que leva o seu nome, patente no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, em São Miguel, nos Açores, onde a artista plástica esteve em residência. Há anos que a açoriana anda aos papéis, criando quadros, esculturas e outras obras de arte feitas exclusivamente desse material, com cortes e recortes. Em Catarina Branco, reúne alguns dos seus trabalhos, numa retrospetiva que recua a 2009 e chega à atualidade.

São dez, as peças que estão no Arquipélago. A maioria foi já apresentada noutras mostras e quase todas pertencem a colecionadores, mantendo-se, por isso, escondidas dos olhares do público. Agora, todas juntas, confrontam-se no mesmo espaço e refletem sobre o percurso da artista, dando-nos um olhar global sobre a evolução da sua obra. “Mais do que uma mostra do meu trabalho, esta exposição acaba por ser uma mostra do meu processo de trabalho”, nota Catarina Branco.

“Nos primeiros trabalhos a tridimensionalidade começa a despontar de forma ainda tímida”, afirma a artista, apontando para as peças expostas na parede, pertencentes à série Fenais de Luz. Mais à frente, em obras posteriores, o recorte há de ser mais acentuado e o trabalho de cor mais evidente. Não é difícil de perceber que a densidade e o volume têm crescido cada vez mais ao longo do seu percurso. Com cortes e recortes que se repetem ou que se vão tornando mais sofisticados, ali se evoca a paisagem açoriana, reinterpretada, em camadas de vegetações de diferentes tonalidades e também os tapetes de flores feitos nas Festas do Santo Cristo. “Há um lado vegetal que gosto de ter nas minhas peças. Agrada-me transportar a paisagem para um contexto diferente”, sublinha Catarina Branco, que nunca faz desenhos prévios antes de se lançar aos papéis, de tesoura na mão. “Está tudo na minha cabeça”, garante, reconhecendo-se compulsiva e minuciosa quando está a criar.

Dádiva

Dádiva

Miguel Machado

“Quando olho para a paisagem açoriana, não vejo só um verde, vejo muitos verdes diferentes, numa geografia que, para mim, se vai modificando. Vejo mais cores do que as que existem na realidade e isso interessa-me. Gosto de brincar com a realidade e não ser tão literal”, diz. Nos verdes, nos pretos ou na mistura de cores, são sempre muitas as tonalidades que usa, ajudando à tridimensionalidade de peças que, por vezes, parecem querer saltar da parede. Capacho é a única peça de chão, mais geométrica, feita de papel entrelaçado, com as técnicas antigas dos tapetes açorianos. “A ideia é que voe e se expanda para outros lados”, comenta Catarina.

Na exposição do Arquipélago estão, ainda, uma estatueta africana e um vaso, cedidos pelo Museu Carlos Machado. “Quis estabelecer uma relação com outras culturas, tal como costumo fazer nas minhas obras.” Basta voltar a olhar para Dádiva, a escultura que nos recebe à entrada, para o perceber. Catarina Branco descreve-a: “Fiz uma figura híbrida, que podia ser animal, vegetal ou humana até. É uma peça que se transforma de cada vez que a olhamos. Quando estou a trabalhar, também eu me transformo. O papel, para mim, é um ser vivo, é elástico, molda-se como se fosse vivo. Dádiva é uma síntese de todo o meu processo de trabalho. Nesta peça, trabalhei a cor, as formas, o espaço, a paisagem exterior e interior, o imaginário, a maneira como vejo as coisas e as reinterpreto. Dei-lhe este nome por tudo isto e porque, para mim, esta exposição e esta residência, foi ‘um dar e receber’.”

Também no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas está, até 30 de julho, Tempo Líquido, uma exposição coletiva de vídeo-arte que reúne 14 obras de artistas portugueses e estrangeiros, criadas nos anos 80, 90 e 2000. Nuno Cera, Rui Toscano, João Onofre, André Romão, Bruce Nauman, Doug Aitken, Alicia Framis, Ignacio Uriarte e Douglas Gordon são alguns dos que ali mostram vídeos.

Da série Fenais de luz, a primeira, à atualidade, o trabalho de Catarina Branco vai ganhando volume e tridimensionalidade

Da série Fenais de luz, a primeira, à atualidade, o trabalho de Catarina Branco vai ganhando volume e tridimensionalidade

Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas > R. Adolfo Coutinho de Medeiros, Ribeira Grande, São Miguel, Açores > T. 296 470 130 > até 23 jul, ter-dom 10h-18h