Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

'Fé, Caridade e Esperança': Monstros como nós

Ver

  • 333

O encenador Tonán Quito volta a pegar numa peça de Horváth para criar um retrato grotesco do modo como nos relacionamos, uns com os outros, e com a “esmagadora” máquina do Estado. Até ao final do mês, Fé, Caridade e Esperança vai andar por vários espaços de teatro amador em Lisboa. Depois, em julho, segue para o Porto

O encenador Tonán Quito parte do texto do dramaturgo austríaco Ödön von Horváth e trá-lo para os nossos dias.

O encenador Tonán Quito parte do texto do dramaturgo austríaco Ödön von Horváth e trá-lo para os nossos dias.

Bruno Simao

Um palco vazio. Ao fundo, apenas um bebedouro de água, de plástico, daqueles que encontramos em qualquer sala de espera. Neste cenário inóspito, assistimos ao desespero de Elisabeth (Filipa Matta), uma mulher que, na luta pela sua sobrevivência, se vê refém de um Estado kafkiano e de uma sociedade impiedosa, acabando por se suicidar. Fé, Caridade e Esperança é o que esperamos encontrar a qualquer momento, mas à medida que a peça avança torna-se claro que o título não passa de uma terrível ironia.

Tonán Quito parte do texto do dramaturgo austríaco Ödön von Horváth – escrito em 1932, num período de profunda crise económica, social e espiritual – e trá-lo para os nossos dias. Com o intuito de representar a própria sociedade, chamou para o elenco três grupos de teatro amador que aqui desempenham um papel híbrido, fazendo deles próprios “com um toque de personagem”, como diz o encenador. As histórias das personagens com as quais Elisabeth se vai cruzando dão assim lugar a episódios reais, contados na primeira pessoa, que evocam a própria experiência dos atores amadores em situações absurdas na sua relação com organismos públicos – do Consulado-Geral do Brasil à Direção Regional de Educação, em Lisboa, passando, naturalmente, pela Segurança Social.

A peça assinala o regresso de Tonán Quito a Horváth (depois de Histórias do Bosque de Viena). “Interessa-me a sua linguagem direta; como fala de pessoas e temas complexos de forma aparentemente simples, nomeadamente sobre a nossa relação, uns com os outros, e com o Estado”, afirma. Desta vez, o encenador quis sair de um teatro convencional e montar a peça em espaços de teatro amador, procurando uma “maior proximidade” com os seus atores – do Grupo de Interpretação Criativa, do Gesto e do Pano Cru, que contracenam com Carla Galvão, Marco Mendonça ou Miguel Loureiro –, mas também com os seus públicos.

Fé, Caridade e Esperança > Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul (com o Grupo de Interpretação Criativa) > Av. D. Carlos I, 61, Lisboa > 1-4 jun, qui-sáb 21h30, dom 18h30 > Auditório Fernando Pessa (com o Gesto – Grupo de Teatro) > Espaço Municipal da Flamenga, Lisboa > 15-18 jun, qui-sáb 21h30, dom 18h30 > A Promotora (com o Grupo de Teatro – Pano Cru) > Lg. do Calvário, Lisboa > 29 jun-2 jul, qui-sáb 21h30, dom 18h30 > Campanhã, Porto > 7-9 jul, sex-dom 21h30