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Cidade em movimento: há dez novas galerias de arte em Lisboa

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No último ano abriram seis galerias de arte em Lisboa – e mais quatro, só esta semana. À boleia da ARCO Lisboa, que acontece entre esta quinta-feira, 18, e domingo, 21, na Cordoaria Nacional, fomos conhecer quem está por detrás destes projetos e põe a cidade em movimento

Gabriela Lourenço, Sandra Pinto e Susana Lopes Faustino

“Lisboa pode ser uma Berlim em termos criativos, mas com uma vida mais acessível”, acredita o artista plástico Skoya Assémat-Tessandier que em novembro passado abriu, em Arroios, a galeria The Switch

“Lisboa pode ser uma Berlim em termos criativos, mas com uma vida mais acessível”, acredita o artista plástico Skoya Assémat-Tessandier que em novembro passado abriu, em Arroios, a galeria The Switch

Luis Barra

1. The Switch

Nascido há 31 anos em Paris, França, o artista plástico Skoya Assémat-Tessandier já viajou pelo mundo, viveu em cidades como São Francisco, Londres, Tóquio ou Amesterdão, até ouvir falar do que se passava em Portugal, da street art, dos talentos e da criatividade emergentes. “Lisboa pode ser uma Berlim em termos criativos, mas com uma vida mais acessível”, acredita. Em novembro passado, abriu, em Arroios, a galeria The Switch, que esta sexta-feira, 5, inaugura uma exposição de Anzhelika Ishkova, artista russa a viver também por cá. Até 21 de maio, ocupará o Cabinet de l'Art, que funciona como uma sala privada de exposições nesta galeria assim batizada devido à parede giratória que divide este espaço de entrada do outro, que Skoya usa, a maior parte do tempo, como ateliê. A exposição de junho há de exibir o trabalho do dono da The Switch. Sobre o que mostrará, diz apenas, a sorrir: “Só posso revelar que é acrílico sobre tela.” R. Heróis de Quionga, 54 D, Lisboa > T. 93 408 4058 > ter, qui e sáb 15h-19h

Na Wozen, os artistas acompanham sempre as suas exposições. 
O são-tomense 
Kwame Sousa 
(na foto, ao centro, entre os proprietários da galeria) criou, 
ali em residência, 
a maioria das peças de 'Reino Angolar: Utopias e Territórios'

Na Wozen, os artistas acompanham sempre as suas exposições. 
O são-tomense 
Kwame Sousa 
(na foto, ao centro, entre os proprietários da galeria) criou, 
ali em residência, 
a maioria das peças de 'Reino Angolar: Utopias e Territórios'

José Caria

2. Wozen Studio Gallery

Três figuras masculinas, pintadas a preto, destacam-se num fundo de cores vibrantes. A obra do artista são- -tomense Kwame Sousa dá as boas-vindas a quem entra na Wozen Studio Gallery, que ocupa dois grandes salões de um edifício na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Reino Angolar: Utopias e Territórios estará patente só até ao próximo domingo, 7. “A arte africana é muito diferente da europeia, é mais espontânea, gestual e colorida”, descreve Johnny, um dos responsáveis por esta galeria que comemora o seu primeiro aniversário no próximo dia 21. Com teto de pé alto e grandes janelas viradas para o Museu Nacional de Arte Antiga, a Wozen resume a sua filosofia num pequeno quadro, logo à entrada: “Somos uma galeria experimental em busca de novos formatos e processos criativos”. “Fugir à superficialidade da arte, criar critérios objetivos de valor e promover artistas emergentes são apenas alguns dos nossos objetivos”, concordam os cariocas Rique Inglez, Johnny e Carolina Martins, os três mentores da Wozen, que é muito mais do que uma galeria com exposições. Ao longo deste ano, organizaram dez mostras, onde participaram cerca de 50 artistas de 14 nacionalidades, mas ali funciona também um estúdio de tatuagem (apenas por marcação) e um palco para concertos intimistas. Na segunda sala, onde fica o ateliê, o angolano Francisco Vidal apresenta Utopia Luanda Machine, Territórios, fruto de uma residência que começou em fevereiro. R. das Janelas Verdes, 128, Lisboa > ter-dom 16h-20h > hello@wozenstudio.com

Ema Ribeiro (à direita, na fotografia) começou por abrir a Ó! Galeria no Porto, em 2009. A galeria dedicada à ilustração estendeu-se depois para Lisboa, como loja temporária, ganhando agora uma nova casa

Ema Ribeiro (à direita, na fotografia) começou por abrir a Ó! Galeria no Porto, em 2009. A galeria dedicada à ilustração estendeu-se depois para Lisboa, como loja temporária, ganhando agora uma nova casa

3. Ó! Galeria

É numa caixa branca em forma de casa, debaixo de um arco de pedra, que se fazem as exposições na Ó! Galeria, recém-inaugurada na Calçada de Santo André. A galeria dedicada à ilustração, que nasceu no Porto, em 2009, e se estendeu depois para Lisboa, em formato pop-up, ganhou uma nova casa. Ali vendem-se as ilustrações de mais de 70 autores portugueses e estrangeiros, muitas delas a encher as paredes, e agora também há espaço para acolher exposições temporárias. Por ali, estão, até esta quinta-feira, 18, os desenhos de Joana Rosa Bragança, em duas séries diferentes: Monocromos e De Trazer Por Casa. Depois, a partir de sábado, 20, chega Tratado de Zoologia, de Rui Vitorino dos Santos. Cç. de Santo André, 86, Lisboa > T. 93 055 8047 > seg-sáb 11h-19h (horário de verão, até 20h)

Depois de ter acolhido uma mostra de duas artistas dinamarquesas, Karla Marie Bentzen e Thilde Louise Dalager, a Shiki Miki recebe, neste mês de maio, os trabalhos de pintura de Rui Neiva

Depois de ter acolhido uma mostra de duas artistas dinamarquesas, Karla Marie Bentzen e Thilde Louise Dalager, a Shiki Miki recebe, neste mês de maio, os trabalhos de pintura de Rui Neiva

4. Shiki Miki

Quem vê de fora a galeria Shiki Miki, aberta em novembro de 2016, não imagina o que se esconde por detrás deste nome, inspirado numa expressão de calão alemã para designar qualquer coisa kitsch mas cool, uma espécie de “chunga refinado”. O andar térreo resume-se a uma pequena sala, com enorme vitrina para a rua, mas, lá em baixo, fica outra bem maior – e, na verdade, neste projeto cabem ainda um apartamento em Montmartre, Paris, um estúdio no campo, também em França, e um ateliê em Santa Luzia, no Algarve. A ideia, explica Eduardo Moreira, é trabalhar nestes diferentes lugares, que podem ser expositivos mas também residências artísticas. “Somos uma plataforma para artistas fora do circuito de galerias e museus”, diz o responsável pela galeria em Lisboa, irmão do artista plástico Bassanti, que criou a Shiki Miki e, com Binau, fez a exposição de abertura. “Queremos ser um sítio em constante transformação, onde haja centrifugação de ideias e de estímulos para a criação”, continua Eduardo Moreira, que ali terá também “eventos satélites” de música, vídeo, performance e instalação.

Para o final do ano, está programado Demasiado Bêbado Para Amar, com novos artistas e alguns dos que, em 2002, participaram em Too Drunk To Fuck, o ciclo de exposições organizado por João Fonte Santa, em reação à eleição de Pedro Santana Lopes para a Câmara Municipal de Lisboa. Fonte Santa, Ana Pérez-Quiroga, Sara e André, Filipe Felizardo, Bassanti, Francisco Vidal, Alice Geirinhas e Pedro Amaral serão alguns dos que ali levarão obras, até ao início de fevereiro de 2018, em cinco momentos diferentes. R. do Conde, 44A, Lisboa > T. 21 802 1443/ 91 835 8380 > qua-dom 14h-19h

“Muitas das boas galerias internacionais com que tenho ligação também não estão necessariamente no centro”, diz Mikael Larsson que optou por abrir a Havaii-Lisbon na Parede, na linha de Cascais

“Muitas das boas galerias internacionais com que tenho ligação também não estão necessariamente no centro”, diz Mikael Larsson que optou por abrir a Havaii-Lisbon na Parede, na linha de Cascais

António Bernardo

5. Hawaii-Lisbon

Mikael Larsson teve o negócio quase feito em Marvila. Era um sítio bastante maior do que aquele que a galeria de arte contemporânea Hawaii-Lisbon veio a ocupar, em outubro do ano passado, na Parede, na linha de Cascais. Optou por ficar perto de casa, e escolher uma antiga garagem de 15 metros quadrados, meio escondida entre moradias de um bairro residencial. É verdade que passa despercebida, mas será de passagem obrigatória para quem procure jovens artistas como aqueles que a Hawaii-Lisbon representa, entre eles, Margarida Gouveia, Daniel Van Straalen ou Alice Ronchi. “O programa da galeria e os artistas falam por si”, diz o proprietário.

É, aliás, com argumentos como este que Mikael, 37 anos, “meio sueco meio português”, pensa contrariar a distância em relação ao circuito habitual de galerias de arte. “Muitas das boas galerias internacionais com que tenho ligação também não estão necessariamente no centro”, justifica. As visitas a feiras e os contactos também ajudam. Viveu alguns anos em Londres, licenciou-se em Artes Plásticas, trabalhou para a Christie's e colaborou com Nuno Centeno e Carlos Noronha Feio no projeto The Mews. Desde que abriu portas – inaugurou com a coletiva Inflatable Aesthetics –, já vendeu obras para a Holanda, Itália e Alemanha e, nos próximos dias, estará presente na ARCO Lisboa, na secção Opening, com curadoria de João Laia. R. Teófilo Braga, 14 A, Parede > T. 21 457 2753 > qui-sáb 12h-18h

Em vez vez de galeria de arte, o arquiteto francês Benjamin Gonthie prefere chamar a Foco Lisboa de “núcleo artístico e interdisciplinar”

Em vez vez de galeria de arte, o arquiteto francês Benjamin Gonthie prefere chamar a Foco Lisboa de “núcleo artístico e interdisciplinar”

António Bernardo

6. Foco Lisboa

Ainda hoje, cinco meses depois da inauguração, o arquiteto francês Benjamin Gonthie sente dificuldade em definir o projeto Foco Lisboa como uma galeria de arte. Uma resistência explicada pelos diferentes (e muitos) planos que tem para os 60 metros onde funciona o que prefere chamar de “núcleo artístico e interdisciplinar”. “Nunca pensei em abrir uma galeria, mas o que se tem passado aqui dentro são exposições. E por isso começo a habituar-me à ideia. As pessoas sentem necessidade em pôr um rótulo, eu entendo, e não está errado”, diz Benjamin. Pela Foco, já passou cerâmica, design e pintura. Desde a passada quinta-feira, 27 de abril, que a “galeria” está ocupada pelas esculturas do jovem artista Aires de Gameiro, uma estreia absoluta. “Veio bater-me à porta, vi o seu trabalho e gostei muito e, por causa disso, convidei-o para fazer uma exposição”, explica Benjamin. Seguir-se-á uma mostra coletiva dedicada à arquitetura e, a partir de julho, outra de design. R. da Alegria, 34, Lisboa > T. 96 031 7519 > ter-sáb 11h-20h

E ainda...

Mais quatro galerias acabadas de inaugurar esta semana

A Galeria Francisco Fino fica num antigo armazém em Marvila

A Galeria Francisco Fino fica num antigo armazém em Marvila

Em Marvila, na passada segunda-feira, 15, inaugurou a Galeria Francisco Fino, num antigo armazém de 690 metros quadrados, no número 76 da Rua Capitão Leitão. Uma abertura aguardada, pelo portefólio de artistas que traz e as ambições que mostra (seis projetos expositivos anuais e a participação em feiras nacionais e internacionais – a ARCO Lisboa será apenas a primeira). Representados pela Francisco Fino são os portugueses José Pedro Cortes, Vasco Araújo, Marta Soares e Gabriel Abrantes, o espanhol Karlos Gil e o britânico Tris Vonna-Michell. Os seis artistas fazem parte da primeira exposição da galeria, Morphogenesis, uma coletiva, com curadoria de João Laia, que reúne a estes mais outros 11, entre eles, Alexandre Estrela e Diana Policarpo e internacionais que se apresentam pela primeira vez em Portugal.

Não muito longe, inaugurou, no mesmo dia, a The Room, uma sala de projeção de vídeo, que abre com Spectateur Eternel, de Rui Calçada Bastos, que esteve agora no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, na sua exposição Walking Distance (e que aqui fica até final de junho). “Não somos uma galeria, com representação de artistas, calendário fixo e participação em feiras, até poderemos evoluir para aí, mas por enquanto somos apenas um project room”, explica João Chaves, responsável pela The Room, que funcionará no número 76 da Rua do Açúcar.

Na terça, Alvalade ganha uma nova galeria: a espanhola Maisterravalbuena, de Madrid, inaugura uma segunda casa em Lisboa. “Há algum tempo que queríamos ir também para fora de Espanha e este é um lugar com colecionadores e uma cena artística muito interessante, que gostávamos de conhecer melhor. O mercado é muito diferente do Espanhol, mas estamos perto”, diz a galerista Belén Valbuena. Escolheram um bairro “tranquilo” e instalaram-me num pátio com oficinas, no número 40 da Rua Reinaldo Ferreira, não muito longe de outras galerias. Ways of the Hand é a primeira exposição, de escultura, com curadoria dos portugueses Luís Silva e João Mourão, que junta sete artistas: Haris Epaminonda, Leonor Antunes, Joana Escoval, André Romão, Iman Issa, Christodoulos Panayiotou e Magdalena Jitrik.

Também a italiana Monitor, de Roma, escolheu Lisboa para abrir a sua segunda galeria. Na Rua D. João V, 17A, no rés do chão de um prédio do século XIX, a precisar de remodelação, terão, a partir de sexta, 19, uma instalação site specific, do britânico Graham Hudson. Será a primeira exposição da Monitor lisboeta, antes de fechar para obras em julho e de reabrir em setembro. “Já tivemos, durante dois anos, uma galeria em Nova Iorque e agora andávamos à procura de uma cidade na Europa. Mesmo que Lisboa não seja comercialmente o lugar para se estar, tem uma boa vibração e acredito que a cena da arte contemporânea só pode crescer. Vai ser desafiante”, afirma Paola Capata. Por cá, diz, quer apostar em novos artistas ou em artistas mais velhos que aqui encontrem contextos diferentes. “Será uma galeria mais experimental do que a de Roma”, conclui. Gabriela Lourenço

Galeria Francisco Fino
R. Capitão Leitão, 76, Lisboa > T. 92 562 3717 > ter-sex 12h-19h, sáb 14h-20h

Maisterravalbuena
R. Reinaldo Ferreira, 40, Lisboa > T. 21 849 0066 > ter-sáb 10h-19h

Monitor
R. D. João V, 17A, Lisboa > inaugura 19 mai

The Room
R. do Açúcar, 76 - Armazém 26, Lisboa > qua-sex 14h-19h