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José de Almada Negreiros na Cinemateca: seis sessões a não perder

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A Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, dedica um ciclo a Almada Negreiros, pensado em articulação com a exposição antológica na Fundação Gulbenkian. Almada, da Dança das Formas à Imaginação começa esta terça-feira, 16, com o antifilme de Ernesto de Sousa, Almada, Um Nome de Guerra

Estudos para grandes planos de Almada Negreiros, 1971

Estudos para grandes planos de Almada Negreiros, 1971

Arquivo Ernesto de Sousa

É da relação de Almada Negreiros com o cinema, enquanto espectador e artista, que nos fala o ciclo Almada, da Dança das Formas à Imaginação com início esta terça-feira, 16, na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa. E que se propõe a mostrar, através de um conjunto de filmes tão díspares como os de Walt Disney, Charlie Chaplin ou Edgar Pêra, que há uma relação muito forte entre o artista e a sétima arte que atravessa toda a sua vida: os ensaios que escreveu sobre cinema, como o artigo de 1921, onde expressa a sua admiração por Charlot, personagem associada à figura do saltimbanco que lhe é tão querida; as alusões ao cinema em textos de cariz mais literário; o vasto trabalho que desenvolveu nesta área e que inclui, por exemplo, os cartazes e genérico do filme A Canção de Lisboa (1939), materiais promocionais para a Paramout Pictures (onde Almada trabalhou no departamento de publicidade), os painéis em gesso que fez para a decoração do Cine San Carlos, em Madrid, e ainda duas lanternas mágicas desenhadas. Como ator participou no filme perdido de Mário Huguin, O Condenado (1921), e como realizador chegou a projetar um filme animado com desenhos geométricos, ou outro sobre Amadeo de Souza-Cardoso, ideias que nunca concretizou.

Concebido em colaboração com a exposição antológica que está no museu da Fundação Gulbenkian (a galeria de exposições temporárias do piso inferior é toda ela dedicada à relação de José de Almada Negreiros com o cinema, o humor e a narrativa gráfica), o ciclo de cinema começa esta terça, 16, às 19 horas, com a apresentação de Almada, Um Nome de Guerra, de Ernesto Sousa, na Sala M. Félix Ribeiro, e termina no dia 30 com a projeção de vidros para lanterna mágica, recentemente descobertos já depois de inaugurada a exposição, que Almada Negreiros concebeu para o espetáculo La tragedia de Doña Ajada (1929). Entre a abertura e o final de Almada, da Dança das Formas à Imaginação, selecionámos seis sessões a não perder.

Arquivo Ernesto de Sousa

1. Almada, Um Nome de Guerra, de Ernesto de Sousa

Em 1969, Ernesto de Sousa planeou um filme experimental em que Almada Negreiros seria protagonista. Angariou fundos, filmou Almada, entrevistou-o e trabalhou nesse projeto durante vários anos, já depois da morte do artista. O resultado foi um mixed-media com projeções simultâneas de slides e películas, música original de Jorge Peixinho e a inclusão de outros projetos de Ernesto de Sousa.

Apresentado pela primeira vez em 1979, Almada, Um Nome de Guerra, de Ernesto de Sousa, foi exibido na Fundação Gulbenkian em 1984 para a exposição de Almada Negreiros que inaugurava o edifício do Centro de Arte Moderna. Já este ano, aquando da inauguração da exposição José de Almada Negreiros: Uma Maneira de Ser Moderno, a Gulbenkian voltou a projetar o antifilme de Ernesto de Sousa, surgindo agora outra rara oportunidade. 16 mai, ter 19h

O Circo, de Charlie Chaplin

O Circo, de Charlie Chaplin

Coleção da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema

2. Le Ballet Mécanique, de Fernand Léger + O Circo, de Charles Chaplin

Da importância de Charlie Chaplin para as Vanguardas e para o trabalho de Almada Negreiros, figura por quem tinha grande admiração, nos fala esta sessão que inclui o filme O Circo, antecedido pela curta-metragem de 15 minutos Le Ballet Mécanique, de Fernand Léger. 18 mai, qui 18h30

3. Lichtspiel Opus I, Ii, Iii, Iv, de Walter Ruttmann + Rhythmus 23, de Hans Richter + Symphonie Diagonale, de Viking Eggeling + Silly Symphonies, de Walt Disney + Musicland, de Wilfred Jackson + The Country Cousin, de David Hand + The Old Mill, de Wilfred Jackson

É o cinema de animação e os desenhos animados que aqui se olham, exaltados por Almada Negreiros na conferência da estreia de Branca de Neve e os Sete Anões (1938), em Lisboa. A sessão mistura um conjunto de pequenos filmes do cinema abstrato com curtas-metragens produzidas por Walt Disney – as geniais Silly Symphonies. 24 mai, qua 18h30

4. Ritmi Di Stazioni, Impressioni Di Vita N.1, de Corrado D’Errico + Douro Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira + Berlim, Sinfonia de uma Capital, de Walter Ruttmann

Sessão dedicada às chamadas Sinfonias Urbanas, em que se aborda o futurismo e modernismo dos anos 1930. O género deve o nome ao filme Berlim, Sinfonia de uma Capital, de Walter Ruttmann, sobre as diversas atividades de uma cidade, que é afinal a protagonista. A abrir Ritmi Di Stazioni, Impressioni Di Vita N.1, de Corrado D’Errico, exibido pela primeira vez na Cinemateca, seguido de Douro Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira que, para o seu trabalho, se inspirou no filme-sinfonia de Ruttmann. 23 mai, ter 18h30

5. Danse Serpentine, de Louis Lumière + Entr’acte, de René Clair, com Man Ray, Max Ernst, Erik Satie + Arabesques / Étude Cinégraphique Sur Une Arabesque, de Germaine Dulac + L’hippocampe, de Jean Painlevé + La Villa Santo Sospir, de Jean Cocteau

A dança e o ritmo dos movimentos incessantes que tanto interessou a José de Almada Negreiros são aqui abordados através de cinco filmes, com destaque para Danse Serpentine, dos irmãos Lumière, vídeo com menos de um minuto em que uma bailarina dança sem banda sonora. 25 mai, qui 18h30

As Aventuras do Príncipe Archmed, de Lotte Reiniger e Carl Coch

As Aventuras do Príncipe Archmed, de Lotte Reiniger e Carl Coch

Coleção da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema

6. Projeção de vidros de Almada + La Lanterne Magique, de Georges Méliès + As Aventuras do Príncipe Archmed, de Lotte Reiniger e Carl Coch + O Naufrágio da Ínsua, de José de Almada Negreiros

Georges Méliès foi, para Almada, um dos grandes génios do cinema, evocado aqui através de A Lanterna Mágica (1903), filme animado por um Pierrot que nos leva às origens do cinema. Realizado em sombras chinesas, As Aventuras do Príncipe Archmed está diretamente relacionado com os seis quadros para lanterna mágica com desenhos de Almada Negreiros para a obra La Tragédia de Doña Ajada (1929), feita em colaboração com o compositor madrileno Salvador Bacarisse. Os desenhos foram fotografados em placas de vidro pintadas, descobertas já depois da inauguração da exposição na Gulbenkian, e são apresentados pela primeira vez em projeção. A encerrar a sessão, O Naufrágio da Ínsua, que conta, através de 64 desenhos que compõem um filme “a fingir”, a história trágico-cómica do naufrágio de várias pessoas ao largo da insula de Moledo do Minho, depois de terem sido apanhados por uma tempestade. A exibição será acompanhada ao piano por Filipe Raposo. 30 mai, ter, 19h

La Tragedia de Doña Ajada, lanterna mágica para música de Salvador Bacarisse com poemas de Manuel Abril

La Tragedia de Doña Ajada, lanterna mágica para música de Salvador Bacarisse com poemas de Manuel Abril

Fundação Calouste Gulbenkian

Almada, da Dança das Formas à Imaginação > Cinemateca Portuguesa > R. Barata Salgueiro, 39, Lisboa > T. 21 359 6200 > 16-30 mai > €3,20