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'A Escolha do Rei': O homem que preferiu dizer 'não'

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O filme de Erik Poppe, A Escolha do Rei, é um poderoso testemunho da resistência do rei Haakon VII à ocupação nazi da Noruega, encetada em abril de 1940

Carolina Freitas

O filme, coproduzido pela Noruega e pela Irlanda, teve a quinta melhor bilheteira de sempre na Noruega no fim de semana de estreia e foi o candidato norueguês deste ano ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira

O filme, coproduzido pela Noruega e pela Irlanda, teve a quinta melhor bilheteira de sempre na Noruega no fim de semana de estreia e foi o candidato norueguês deste ano ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira

Não se trata de mais um filme sobre a Segunda Guerra Mundial e os horrores da máquina nazi. Tão pouco é, na sua essência, um filme sobre a “conquista” da Noruega pelas forças do exército alemão. Em A Escolha do Rei, 
a realidade histórica serve apenas como pano 
de fundo para contar um episódio pouco conhecido dessa invasão ao país escandinavo 
– e que merece ser lembrado: a renúncia do rei Haakon VII à ocupação alemã e ao governo imposto por Hitler.
Centrado num período de três dias – 9, 10 e 11 de abril, de 1940 –, o filme acompanha a tentativa de resistência do rei e da sua família, explorando sobretudo os conflitos éticos e morais com que o monarca se depara à medida que o “ultimato” se aproxima: com as principais cidades da Noruega controladas pelo exército alemão, e na ausência de uma resposta militar à altura, resta-lhe render-se (como fez o seu irmão Christian X, rei da Dinamarca), ou sofrer as consequências.
Não sendo surpreendente em termos de linguagem cinematográfica, A Escolha do Rei cumpre bem a função de filme-testemunho; de “farol simbólico” da luta pela soberania de um país, como aparece escrito nas declarações finais. É de realçar a personagem principal, interpretada de forma convincente pelo dinamarquês Jesper Christensen, na pele de um rei humanizado, 
tão preocupado com os netos como com o povo que o elegeu (nas primeiras eleições após a independência total da Suécia, em 1905).
Mas talvez o grande rasgo do filme venha de Curt Bräuer, papel desempenhado pelo austríaco Karl Markovics (a lembrar muito Christoph Waltz, na sua versão mais severa). Entalado entre o dever de obediência ao führer e a vontade de ajudar o rei a preservar a política de neutralidade da Noruega, o enviado nazi acrescenta complexidade e fulgor à trama, trazendo para o filme as inquietações de alguém que só agora começa a perceber do que a grande máquina de Hitler é capaz.
Um dos momentos altos do drama de Erik Poppe resulta precisamente do confronto entre estas duas figuras (Haakon VII e Bräuer), numa cena memorável que põe a nu as convicções de cada um: de um lado, um rei que recusa entregar o destino do seu país “numa sala, em privado” (sem a legitimidade do Executivo e do povo); e de outro lado, um diplomata que acredita estar ao serviço da paz ainda sem imaginar a dimensão da guerra que tomará conta da Noruega, e do mundo, até 1945.

A Escolha do Rei > de Erik Poppe, com Jesper Christensen, Tuva Novotny, Anders Braasmo Christensen, Karl Markovics > 130 minutos