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'Fátima': A fé a pé

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O mais humano, demasiado humano, filme que poderemos ver com Fátima como pano de fundo (e destino final). Fátima, de João Canijo, já está nas salas de cinema

As 11 atrizes instalaram-se perto de Vinhais e foi aí, integrando-se o mais possível na comunidade, que, como no lento processo dos fumeiros locais, construíram e sublimaram as suas personagens

As 11 atrizes instalaram-se perto de Vinhais e foi aí, integrando-se o mais possível na comunidade, que, como no lento processo dos fumeiros locais, construíram e sublimaram as suas personagens

Em conversa com a VISÃO, há cerca de um ano, a atriz Anabela Moreira falava deste filme como “um road movie, ou melhor um foot movie”. O processo foi longo. Antes da rodagem em que se construiu o filme, que esta quinta-feira, 27, chega às salas, houve muito trabalho invisível. As 11 atrizes instalaram-se perto de Vinhais e foi aí, integrando-se o mais possível na comunidade, que, como no lento processo dos fumeiros locais, construíram e sublimaram as suas personagens. A escolha de Vinhais não foi arbitrária: é dali que sai a maior caminhada de peregrinos em direção a Fátima em território nacional, cerca de 400 quilómetros percorridos em nove dias.

Dessa presença continuada em Rio de Fornos (mesmo ao lado de Vinhais), nada se vê na montagem final do novo filme de João Canijo. Mas é óbvio que o filme não seria o mesmo sem esse estágio transmontano. Fátima vê-se como uma espécie de documentário hiper-
realista. Mergulha-nos no quotidiano duro da peregrinação, com muitas imagens que se prolongam pelas bermas da estrada, as personagens em silêncio, entoando cânticos ou em conversas triviais.

A fé pode ser o pretexto da caminhada, mas aqui tudo é humano, demasiado humano: a tensão que sobe num grupo de mulheres que partilham o mesmo desconfortável espaço dias a fio, a necessária solidariedade de grupo e os inevitáveis egoísmos, as odiosas bolhas nos pés ou lesões nas pernas com que é preciso lidar depois de muitos quilómetros percorridos, a forretice da dona da carrinha de apoio das peregrinas (excelente interpretação de Márcia Breia), os sotaques e o vernáculo que estas mulheres do Norte gostam de usar... Passo a passo, o mais impressionante é mesmo a qualidade do trabalho destas atrizes absolutamente comprometidas com a sua causa (o cinema e toda a vida que há no cinema).

O filme está disponível em duas versões, a mais curta com 153 minutos e a mais longa com 202. Uma espécie de calvário ou suplício? Faz todo o sentido.

Fátima > de João Canijo, com Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Vera Barreto, Teresa Madruga, Ana Bustorff, Alexandra Rosa, Teresa Tavares, Íris Macedo, Sara Norte e Márcia Breia > 153/202 minutos