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'Migrantes': A revolução da partilha

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A peça de teatro Migrantes, do romeno Matéi Visniec, propõe um outro olhar sobre uma nova realidade. A encenação de Rodrigo Francisco estreia-se esta sexta-feira, 21, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada

Nuno Miguel Guedes

Migrantes, produção da Companhia de Teatro de Almada com encenação de Rodrigo Francisco, é uma peça construída com cenas breves, de forma modular

Migrantes, produção da Companhia de Teatro de Almada com encenação de Rodrigo Francisco, é uma peça construída com cenas breves, de forma modular

Rui Carlos Mateus

Existem traficantes entre o público. Estão abrigados pelo escuro, de lanterna na mão e dão instruções a homens, mulheres e crianças que fogem de zonas flageladas pela guerra, arriscando a vida e até mais por dias melhores. Estão próximos, demasiado próximos. Esta é uma das realidades que Matéi Visniec, autor da peça, quer que olhemos – de frente.

Migrantes, produção da Companhia de Teatro de Almada com encenação de Rodrigo Francisco, é uma peça construída com cenas breves, de forma modular. A partir de experiências vividas enquanto jornalista da Radio France (onde visitou vários campos de refugiados), Visniec faz-nos refletir sobre uma realidade tão brusca como inevitável: o fluxo migratório proveniente de zonas de guerra e que chega a uma Europa mais ou menos atónita. Há o confronto com o desconhecido, presente num casal algures nos Balcãs, em que a mulher confirma: “Nunca vi um preto”. Há os negócios de tráfico de órgãos, esse “capital” que os refugiados têm para chegar a uma qualquer Terra Prometida; há a sátira a uma Europa que se fecha, ilustrada em “Salões de Novas Tecnologias Anti-Imigração”; há o conflito entre os modos culturais de ver a sexualidade; há a cultura política da hipocrisia perpetuada na linguagem “politicamente correta”, que pode esconder extremismos.

A tese de que Visniec fala é simples: “Dar a ver a hipocrisia da distinção entre refugiados de guerra e refugiados económicos”, afirma Rodrigo Francisco. E também avançar a perceção que esta migração é uma revolução pacífica, de partilha. Uma espécie de ressaca da maré dos valores ocidentais globalizantes que não conseguiram medrar. No seu aparente despojamento de linguagem e construção dramatúrgica, Migrantes interpela, faz-nos pensar sobre o que está mesmo ao nosso lado. E isso já é tanto.

No sábado, 22, haverá uma conversa com o público, com a presença do autor da peça, Matéi Visniec, às 18 horas, no foyer do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.

Migrantes > Teatro Municipal Joaquim Benite > Av. Professor Egas Moniz, Almada > T. 21 273 9360 > 21-28 abr, 3-14 mai, qua-sáb 21h30, dom 16h > €13