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No sábado de Aleluia queima-se Judas à espera de um novo ciclo

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Em Tondela, Vila do Conde e Vila Nova de Cerveira, a noite deste sábado, 15, serve para queimar os males e renovar a alma. Como se viajássemos do apocalipse ao paraíso, do inverno à primavera

A Queima e Rebentamento do Judas, em Tondela, tornou-se num dos espetáculos comunitários de maior dimensão do Trigo Limpo Teatro Acert

A Queima e Rebentamento do Judas, em Tondela, tornou-se num dos espetáculos comunitários de maior dimensão do Trigo Limpo Teatro Acert

Ricardo Chaves

Na Fábrica da Queima, em Tondela, cerca de 200 voluntários andam numa roda-viva, desde o início da semana. Durante o dia e grande parte da noite ensaiam-se músicas, decoram-se textos e ajuda-se a construir o boneco gigante de oito metros – em forma de ovo de Páscoa, com duas faces – que há de personificar Judas Iscariotes. E que será queimado pouco antes da meia-noite deste sábado de Aleluia, dia 15, simbolizando a passagem do apocalipse ao paraíso, do inverno à primavera.

A Queima do Judas, organizada pelo Trigo Limpo Teatro Acert, soma mais de 20 anos e Pompeu José, o diretor artístico, vê com orgulho a presença renovada de voluntários que todos os anos anseiam pela chegada desta noite envolta numa imensa “ironia poética”. Este ano, o “texto sempre provocatório” ironiza “com o conceito de um país ideal, se calhar enganador”, conta Pompeu José. Se, na primeira parte do espetáculo, “parece que todos estão felizes”, na segunda, lembram-se os refugiados e “percebemos que também nós poderemos ser convidados a sair” do nosso país, continua o diretor artístico.

A figura de Judas será velada, a partir da tarde, em Vila do Conde

A figura de Judas será velada, a partir da tarde, em Vila do Conde

A tradição de Queimar o Judas – simbolizando a morte de Judas Iscariotes que, por 30 moedas de prata, entregou Jesus aos soldados romanos para ser crucificado – é um espetáculo comunitário que tem ganho cada vez maior dimensão. Em Vila do Conde, a associação cultural Nuvem Voadora reúne cerca de 250 voluntários (entre duas dezenas de associações), inspirando-se, desta vez, “na obra literária e pictórica” de Júlio Saúl-Dias, irmão do poeta José Régio. Este ano, salienta o diretor artístico Pedro Correia, o espetáculo terá um cariz “mais visual e musical”, com a dramaturgia a passar por extratos de poemas de Saúl-Dias. Pela primeira vez, começa durante a tarde (16h) com o velório de Judas e uma performance levada a cabo “pelas cinco viúvas”, prosseguindo, à noite (às 22h30), com um “cortejo inspirado num ritual fúnebre de várias culturas” que convida o público a beber vinho e a comer carne de porco. A figura de Judas “representa o lado maléfico da sociedade, havendo pormenores que nos levam a imaginar os ditadores fascistas”, descreve Pedro Correia.

Em Vila Nova de Cerveira, a festa criada pelas Comédias do Minho alia, este ano, jogos populares como a pinhata, a corda ou a malhação a um espetáculo inspirado “nos mostrengos dos quadros de Bosch [pintor holandês]” que nos remetem para os “homens com o peso dos vícios e dos pecados”, descreve-nos o ator e criador Rui Mendonça. A Queima do Judas incluirá a leitura de testamentos da autoria de José Lopes Gonçalves, mas a população é convidada a deixar as suas próprias críticas penduradas numa figueira seca. No fundo, todo este ritual religioso e pagão é uma espécie de catarse que, ao mesmo tempo, nos diverte e (ou) nos dará uma lição de moral.

Em Cerveira, as Comédias do Minho ligam os jogos populares ao espetáculo

Em Cerveira, as Comédias do Minho ligam os jogos populares ao espetáculo

Queimas do Judas > 15 abr, sáb > Av. dos Jardins Júlio Graça, Vila do Conde > 16h, 22h30 > Centro histórico de Vila Nova de Cerveira > 16h, 23h30 > Junto ao Pavilhão Municipal de Tondela > 23h30 > grátis