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'Fatamorgana': Aqui, nesta Torre de Babel

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A realizadora Salomé Lamas estreia-se na encenação de uma peça de teatro com uma história que, mais tarde ou mais cedo, dará mesmo um filme. Fatamorgana estará no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, esta quarta-feira, 12, e quinta, 13 de abril

A atriz Antónia Terrinha está sozinha em palco, rodeada de vozes

A atriz Antónia Terrinha está sozinha em palco, rodeada de vozes

Bruno Simão

Ouve-se o sino a chamar os crentes, discursos de políticos na televisão, tiros e explosões, vozes de americanos e de árabes, buzinas e ambulâncias, multidões e manifestações, risos enlatados e notícias dos ataques ao Iraque e da captura de Saddam Hussein, ouvem-se rezas e cantigas, ouvem-se rezas-cantigas, ouve-se George Michael cantar Careless Whisper. Tudo isto estará no espetáculo que a realizadora Salomé Lamas criou para a Boca – Biennial of Contemporary Arts. Fatamorgana tem a sua génese num filme que começou a preparar já há algum tempo e para o qual fez um casting com atrizes no Líbano. Também excertos desse momento aparecerão em cena. E será com essas faixas de áudio e de vídeo que a atriz em palco, Antónia Terrinha, vai contracenar.

“Procurei ter várias línguas e vários sotaques dentro do inglês e do árabe, um reflexo da ideia de Torre de Babel, relacionada com o caos que vivemos hoje”, explica Salomé Lamas, que encontrou em Beirute um museu de cera com figuras de políticos que a inspirou. Em cena, está, nesse tal museu, uma mulher libanesa, sozinha, cujo filho desapareceu durante a guerra e cujo marido tarda em chegar. “Tal como Molly Bloom e Penélope, Hanan espera pelo marido. Entre a demência e rasgos de lucidez, ela contracena com aquelas figuras de cera, que são caricaturas e avatares de si mesmos: Arafat, Saddam, Bush, Reagan, Putin, Clinton…”, descreve a realizadora.

“Estes fragmentos da história – que podiam ser permutáveis por outros – fazem-nos questionar a democracia e refletir sobre as nações e as fronteiras e em como as alianças têm a ver com interesses económicos e políticos.” Ao espectador pede-se que reflita também e que siga, atento, as palavras daquela mulher.

“Que horas são? O meu marido não gosta que o jantar seja servido depois das sete. O senhor importava-se de falar um bocadinho mais baixo? Sim, Allah condenou os americanos. Sim, eles são estúpidos. Sim, não havia tanques americanos em Bagdad. Sim, mas baixinho, se não se importa. Não consigo ouvir os meus pensamentos. E os meus pensamentos são cada vez mais frágeis”, começará por dizer. Agora, em palco – e depois, num grande ecrã de cinema.

Fatamorgana > Centro Cultural de Belém > Pç. do Império, Lisboa > T. 21 361 2400 > 12-13 abr, qua-qui 21h > €15