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'Veraneantes': Verão com pouco de azul

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Ao Cabo Teatro prossegue o seu périplo pela dramaturgia russa, apresentando – com os olhos postos no presente e em Portugal – uma das peças mais tchekhovianas de Gorki. Veraneantes está no Teatro Nacional São João, no Porto, até 18 de março

Após a trilogia tchekhoviana, Nuno Cardoso regressa à dramaturgia russa, seguindo uma coerência em termos estéticos e ideológicos do que é a escolha de repertório do Ao Cabo Teatro

Após a trilogia tchekhoviana, Nuno Cardoso regressa à dramaturgia russa, seguindo uma coerência em termos estéticos e ideológicos do que é a escolha de repertório do Ao Cabo Teatro

João Tuna

“A nossa vida é um aborrecimento”, ouve-se, no início do terceiro ato de Veraneantes, enquanto as personagens fazem um piquenique à volta da piscina afundada do cenário. Entre jogos de cartas, cantorias, anedotas porcas, grelhados e copos, não há nada que as retire daquele marasmo. Membros da classe média-alta, profissionais liberais que se esqueceram das suas origens, passam o tempo a gemer e a queixar-se, mas não fazem nada para melhorar a sua vida. E é nesta bolha social de ociosidade, onde aparentemente não se passa nada, desligada da efervescência social da Rússia do início do século XX (a peça foi escrita por Maxim Gorki, em 1904), que despontam os primeiros conflitos e começa a vir ao de cima o que realmente pensam uns dos outros.

Após a trilogia tchekhoviana (Platónov, A Gaivota e As Três Irmãs), Nuno Cardoso regressa à dramaturgia russa, seguindo uma coerência em termos estéticos e ideológicos do que é a escolha de repertório do Ao Cabo Teatro. “Queremos fazer, de alguma forma, uma reflexão sobre o Portugal de 2017, não é para ser russo”, sublinha o encenador. “O que interessa, seja em Tchékhov (mais poético) ou em Gorki (menos velado), é a reflexão que eles fazem sobre a vacuidade das relações interpessoais e a forma como as pessoas se isolam nessa quase surdez emocional, egocentrismo e hedonismo e, nesse sentido, ressoam em nós”, acrescenta. Mas se, no primeiro autor, despontavam sinais de esperança, em Gorki não parece existir hipótese de redenção para esta classe.

Para Nuno Cardoso, esta é, sobretudo, “uma afirmação de vitalidade num tempo desvitalizado, uma companhia independente estar a fazer repertório de grande dimensão e poder apresentar, no limite da dignidade, uma peça com 15 atores”. Entre nomes mais reconhecíveis (como os de Cristina Carvalhal, Dinarte Branco ou Maria João Pinho) e novos valores (Afonso Santos, António Parra e Carolina Amaral), o elenco faz um esforço desmedido para fluir por esta festa de diálogos vivazes, longe de um verão azul.

Veraneantes > Teatro Nacional São João > Pç. da Batalha, Porto > T. 22 340 1910 > 9-18 mar, qua 19h, qui-sáb 21h, dom 16h > €7,50 a €16