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'iTMOi – In The Mind of Igor': A sagração da individualidade

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O coreógrafo Akram Khan mostra como a violência de um sacrifício pode dar lugar a um renascimento primaveril. Depois da apresentação em Lisboa, a coreografia iTMOi – In The Mind of Igor chega ao Porto esta quinta-feira, 9

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Um grupo de bailarinos obedece às ordens de uma misteriosa e altiva figura de silhueta branca

Um grupo de bailarinos obedece às ordens de uma misteriosa e altiva figura de silhueta branca

Bruno Simão

Um grupo de bailarinos obedece às ordens de uma misteriosa e altiva figura de silhueta branca. As roupas monocromáticas e os gestos sincronizados transformam-nos numa entidade única. Apenas um deles faz movimentos completamente diferentes dos demais. Apenas um deles se atreve a ir contra as regras. É ele o Igor Stravinsky desta cena.

iTMOi – In The Mind of Igor, em estreia pela Companhia Nacional de Bailado, foi criado pelo coreógrafo britânico de origem bangladeshiana Akram Khan, em 2013, no âmbito do centenário de A Sagração da Primavera, composição revolucionária de Stravinsky que contrariou todos os cânones da época. “Há uma personagem levemente inspirada em Stravinsky e podemos dizer que também ela se sacrifica para salvar a sua voz individual”, diz Akram Khan à VISÃO Se7e.

Todos os movimentos são imprevisíveis, como se cada cena acabasse em rotura com qualquer destino provável, um arrebatamento permanente que permite respirar a espaços. O momento mais intenso transforma o palco num mar de cordas ondulantes que atiram um bailarino em todas as direções. Poderia ser Stravinsky ou cada um de nós. 
“Há sempre elementos de sacrifício no que fazemos”, afirma Khan. A música é fundamental para este ambiente ritualístico, por vezes violento, por vezes redentor. Badaladas cerimoniais, guitarras pujantes, coros etéreos ou o som da agulha depois do disco de vinil acabar compõem a banda-sonora de Nitin Sawhney, Ben Frost e Jocelyn Pook.

O episódio bíblico de Abraão, invocado logo no início do espetáculo, marcou o coreógrafo na infância: “A moral é que se tivermos fé estamos dispostos a sacrificar, sem questionar, o que mais amamos, até um filho. Isso horrorizou-me.” Mas fê-lo questionar o que amava, tal como acredita que Stravinsky terá feito quando os cânones da música clássica deixaram de corresponder à sua curiosidade. E, ao questionarem, ambos encontraram a sua individualidade.

Todos os movimentos são imprevisíveis, como se cada cena acabasse em rotura com qualquer destino provável, um arrebatamento permanente que permite respirar a espaços

Todos os movimentos são imprevisíveis, como se cada cena acabasse em rotura com qualquer destino provável, um arrebatamento permanente que permite respirar a espaços

Bruno Simão

iTMOi – In The Mind of Igor > Teatro Municipal Rivoli > Pç. D. João I, Porto > T. 22 339 2201 > 9-11 mar, qui-sex 21h30, sáb 19h > €10