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Lubitsch Americano: Sete filmes para recordar a era dourada de Hollywood

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Num ciclo dedicado ao cinema clássico de Lubitsch na América, destacamos sete das melhores obras da sua filmografia. Para ver na Cinemateca, em Lisboa, durante o mês de março

Numa entrevista a um blogue de cinema americano, Peter Bogdanovich recorda uma conversa que teve com o também realizador Jean Renoir acerca de Ernst Lubitsch, seu contemporâneo na indústria cinematográfica. Ao perguntar o que achava dele, recebeu uma resposta concisa e imediata: "Lubitsch? Ele inventou a Hollywood Moderna". O próprio Bogdanovich continuaria a comentar a sua "incomparável sofisticação" e o modo como, apesar de ter sido em grande parte esquecido nos últimos tempos (a prejuízo do cinema contemporâneo, argumentam alguns), Lubitsch é consensualmente encarado pela agora "velha guarda" de grandes realizadores como um mestre incontestável do cinema. Num meio em que a disputa e o maldizer entre profissionais são prática comum, esta é uma conquista, no mínimo, digna de atenção.

É costume, nestes círculos, contar-se a história de que Billy Wilder, em si um peso titânico em matéria de realizadores americanos e autor de clássicos absolutos como The Apartment (1960), estimava uma pequena placa no escritório em que escrevia os seus argumentos onde se lia "Como é que Lubitsch tê-lo-ia feito?". Já nessa altura, um pouco por cada estúdio de filmagem, sentiam-se os efeitos de um realizador que chegou da Alemanha para se impôr nos Estados Unidos no início dos anos 20, herdando de Hollywood uma tradição inspirada ainda em D.W. Griffith e no controverso The Birth of a Nation. No espaço de pouco mais de duas décadas, Lubitsch fez de si próprio uma figura notável no meio, realizando dezenas de filmes (com especial predileção para comédias românticas), trabalhando com atores e atrizes de topo e cunhando a sua própria marca de assinatura, até hoje de difícil definição – o "Lubitsch touch".

Em Portugal, como nos Estados Unidos, não faltam elogios à obra de Lubitsch, tida em grande consideração por profissionais e investigadores em igual medida. O argumentista português Tiago R. Santos (A Bela e o Papparazzo, Filhos do Rock, Os Gatos Não têm Vertigens) admira a "genialidade e inteligência narrativa e cénica" de Lubitsch, e o modo como "numa altura complicada em que a censura reinava, encontrava formas subtis de dizer as coisas" – vê mesmo, em Bluebeard's Eighth Wife (1938), o "essencial de como pegar em ideias comuns e torná-las extraordinárias". Já João Constâncio, professor de Estética e Guionismo na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), atribui-lhe a invenção de "uma forma narrativa especificamente cinematográfica", um "espírito roaring twenties" na forma de fazer cinema e um "modo lubitschiano de humor" – frequentemente imitado, mas dificilmente reproduzido.

É essa inovação que está na base do ciclo agora promovido pela Cinemateca, de homenagem ao trabalho desenvolvido por Lubitsch nos 25 anos em que trabalhou na América. De Rosita (1923) até That Lady in Ermine (1948), são 20 os filmes exibidos na Sala M. Félix Ribeiro que fazem parte da seleção "Lubitsch Americano", muitos deles com sessão dupla durante o mês de março. "Fazer retrospetivas integrais, para proporcionar uma visão conjunta, é prática corrente aqui na Cinemateca", explica Maria João Madeira, programadora da instituição. "E o trabalho de Lubitsch é evidência de um autor que o merece. Foi um dos realizadores que, vindo do teatro e atravessando o mudo e o sonoro, criaram a linguagem do cinema. Mais especificamente, Lubitsch é responsável pela abstração da linguagem cinematográfica, o mestre da sugestão, da mise-en-scène, do intangível", continua.

É com o histórico legado de Ernst Lubitsch em mente que a VISÃO Se7e recomenda sete das mais emblemáticas obras do realizador, que influenciaram incontáveis outros mestres da sétima arte e deixaram uma marca perpétua na história do cinema. Ei-los.

1. The Student Prince in Old Heidelberg (1927)

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

Um dos filmes da fase muda de Lubitsch, The Student Prince in Old Heidelberg será também, porventura, aquele lembrado com maior estima nesse período da sua filmografia. Apesar de recebido de forma algo morna, tendo causado um prejuízo à MGM de avultados 300 mil dólares (uma verdadeira fortuna à altura), o tempo tem granjeado ao filme lugar de destaque entre os clássicos do Cinema mudo. Um dos exemplos mais antigos da obra lubitschiana, The Student Prince in Old Heidelberg relata a trama de um jovem aspirante a monarca que se vê dividido entre os seus deveres reais e o rumo que quer o seu coração - um motif milenar, que encontrou eco em milhares de histórias contadas até aos dias de hoje. Uma longa-metragem que contará com uma sessão especial na Cinemateca: como todos os filmes mudos deste ciclo, será mostrado com acompanhamento de piano ao vivo. 23 mar, qui 21h30

2. Broken Lullaby (The Man I Killed) (1932)

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

Naquela que ficou conhecida como a célebre era Pré-Código de Hollywood, na qual a transição de regimes legais na indústria cinematográfica abriu brechas a um discurso mais ousado, ainda que subvertido, entre o final dos anos 20 e início dos 30, quem melhor para capitalizar que o mestre do innuendo e do discurso não-dito? Broken Lullaby ficaria, de resto, conhecido por constituir uma das raras incursões de Lubitsch pelo drama puro e duro, pela qual o próprio não terá tido muita consideração, a julgar por todo um resto de carreira dedicado à comédia. Apesar de tudo, a história de um veterano de guerra e da sua busca por redenção não deve ser posta de parte, até pela oportunidade de testemunhar as habilidades narrativas de Lubitsch num registo mais austero, e no tratamento de temas mais pesados. À altura do seu lançamento, o New York Times apelidou-o de "mais uma prova da genialidade do sr. Lubitsch", visto que, "apesar de triste, a sua história desenlaça-se de forma poética". Lubitschiana, portanto. 3 mar, sex 15h30 > 7 mar, ter 19h

3. Trouble in Paradise (1932)

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

Não haverá melhor forma de apresentar Trouble in Paradise do que dizer que foi este o filme que valeu a Lubitsch, pela primeira vez, a popularidade do seu touch. Uma ideia aproveitada pelo marketing, é certo, ao qual provavelmente devemos o facto de a expressão ser conhecida até aos dias de hoje, mas que não foi conquistada sem mérito próprio. Profundamente marcado pelo seu cunho de assinatura visionário, principalmente no que diz respeito ao conteúdo sexual implícito na era Pré-Código, Trouble in Paradise acompanha dois criminosos profissionais, Gaston e Lily, que conspiram para roubar a fortuna de Madame Colet, excêntrica milionária, ao mesmo tempo que se apaixonam um pelo outro. Destacado por inúmeras personalidades e publicações da altura pela sua índole vanguardista, tendo inclusive sido reconhecidamente descrito como "como caviar, mas mais saboroso" , Trouble in Paradise é ainda hoje considerado um dos melhores filmes de Lubitsch, bem como um dos melhor conseguidos da história do Cinema. 27 mar, seg 15h30

4. Ninotchka (1939)

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

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Porventura um dos nomes mais recordados da filmografia lubitschiana, Ninotchka terá sido mais comentado na sua época por constituir a primeira comédia integral de Greta Garbo (estrela e sex symbol da altura, publicitada de forma célebre nos pósters promocionais como "Garbo laughs!") do que propriamente pelo seu valor cinematográfico, que é, diga-se de passagem, enorme. Tendo como pano de fundo o esplendor da cidade de Paris, Lubitsch utiliza-se do seu requinte para comentar as vicissitudes do estilo de vida capitalista, e o modo como três tolos Russos e uma enviada especial do lado de lá da cortina de Ferro se rendem perante os seus caprichos, sempre de forma cómica. Em concordância com o histórico do realizador, tudo isto é feito plano secundário de uma história de amor entre um homem e uma mulher (Melvyn Douglas e Garbo) de espectros ideológicos opostos, que progressivamente se deixam subverter em função de um sentimento que fala mais alto. De Lubitsch, espere-se uma realização de humor calibrado e surpreendentemente moderno, num filme que conta ainda com o nome de Billy Wilder na sua ficha técnica, como argumentista. 4 mar, sáb 21h30 > 17 mar, sex 15h30

5. The Shop Around the Corner (1940)

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

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De todas as comédias lubitschianas aqui mencionadas, The Shop Around the Corner será provavelmente a mais humilde, desprovida de grandes pretensões: a história de homem e mulher que se conhecem numa loja onde trabalham e se apaixonam. Nestas poucas palavras está encapsulada toda a trama do filme de 100 minutos, cuja ação raramente se desenrola fora do estabelecimento "Matuschek & Co.", onde trabalham diligentemente Alfred e Klara, que se amam por cartas e, em simultâneo, detestam no dia-a-dia profissinal. Se o modo como Lubitsch e a sua equipa de atores entretém, choca, comove, envolve e faz rir o espectador durante estes 100 minutos não é prova suficiente da marca indelével do realizador no cinema americano, é difícil apontar o que mais será. A destreza de Lubitsch face às limitações é notável e o modo como joga com a ciência das personagens esplêndido, num precursor claro do que viriam a ser alguns dos melhores trabalhos de Billy Wilder, décadas depois. 28 mar, ter 15h30

6. To Be Or Not to Be (1942)

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

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Quando a Alemanha Nazi invade a Polónia, em setembro de 1939, uma companhia de teatro concebe um plano para resistir à ocupação do regime através da sua melhor qualidade – a atuação. Dito de forma simples, To Be Or Not to Be é uma excelente comédia que poderia não distar de nós tantos anos, a julgar pela inteligência da sua realização e complexidade de seu argumento. O ano em que foi lançado, no entanto, é crucial: em plena II Guerra Mundial, e enquanto o Eixo ainda constituía verdadeira ameaça aos valores americanos de liberdade e democracia, Lubitsch assinava esta deliciante sátira ao Terceiro Reich que sabe, pelos menos nos dias de hoje, a demasiado mordaz para o seu tempo. Recheado de algumas das manifestações mais memoráveis do célebre "Lubitsch touch" direcionadas ao regime – da referência forçada ao Coronel "Concentration Camp" Ehrhardt ao exagero de saudações nazi –, To Be or Not to Be é um filme à frente do seu tempo, e que ainda hoje é presença assídua nas salas de aula de cursos de Cinema. 25 mar, sáb 21h30 > 30 mar, qui 15h30

7. Heaven Can Wait (1943)

Coleção da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

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Um dos últimos filmes da carreira de Lubitsch (e, por isso mesmo, um dos únicos a ser filmado a cores), Heaven Can Wait pode ser interpretado, num paralelismo com algo mais próximo de nós, como uma leitura do cinema clássico americano dos cânones religiosos e morais por detrás de obras como O Auto da Barca do Inferno – uma exploração da morte, da reflexão que se abate sobre cada um acerca do caminho que traçou e das consequências que este terá no além. Ao falecer, o já idoso Henry Van Cleve (Don Ameche) não tem dúvidas quanto ao seu destino e dirige-se de antemão às portas do Inferno, onde pede a "Sua Excelência" que se apresse a levá-lo. O Diabo, no entanto, tem dúvidas quanto à aptidão de Henry para o local a que se propõe, e pede-lhe que narre o percurso que o levou até ali. Uma tragicomédia romântica de um percurso de vida que questiona convenções sociais e trata a fundo os valores familiares, com performances brilhantes de Ameche e Gene Tierley, realização e produção de Lubitsch e argumento de Samson Raphaelson. 1 de março, qua 19h > 8 de março, qua 15h30

Lubitsch Americano > Cinemateca Portuguesa > R. Barata Salgueiro, 39, Lisboa > T. 21 359 6262 > até 31 mar, seg-sex 15h30, 19h, 21h30, sáb 21h30 > €3,20