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Trainspotting 2: Vinte anos a ver passar comboios

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Danny Boyle regressa a Edimburgo, 20 anos depois, para a sequela de Trainspotting, numa onda junkie nostálgica

A primeira grande surpresa é que, 20 anos depois, eles ainda estão vivos. Vivos e – não diríamos de boa saúde – mas em estado significativamente melhor do que na Edimburgo dos anos 90. E encontramo-los a todos. Renton, Simon, Spud, Begbie, mais velhos, entre o aburguesamento e a reincidência, a mostrar as marcas do tempo, numa nostalgia controlada.

Trainspotting, o segundo filme de Danny Boyle, a partir de um romance de Irvin Welsh, tornou-se uma obra de culto, não só pela forma crua com que trata os junkies escoceses, mas também pelas soluções criativas do seu cinema, criando uma linguagem psicodélica para, por exemplo, retratar expressivamente as trips. A tudo isto se junta, claro, a magnífica banda sonora, que inclui Iggy Pop, Lou Reed, David Bowie e apresentou os Underwold ao mundo cá de cima.

Inevitavelmente este Trainspotting 2, com os mesmo atores a fazer os mesmos papéis 20 anos mais tarde (um pouco à moda de Richard Linlakter e Denys Arcand ), ganha em nostalgia o que perde em adrenalina e espanto. Claro que é impossível repetir o fator surpresa, quer a nível de enredo, quer a nível de realização: o primeiro Trainspotting foi um misto de choque e deslumbramento visual, cheio de momentos ousados, de um novo cinema independente. Neste segundo, de forma mais contida, porque os tempos são outros, Boyle não abdica da sua gramática pessoal, usando-a em conta e medida, sempre que faz sentido e nunca de forma gratuita. A carga nostálgica inerente impede Trainspotting 2 de ser frenético. E sobretudo não deixa de ser constrangedor que onde encontrávamos drama e irreverência agora encontramos personagens de humor e algumas cenas que poderiam caber num guião de Woody Allen (como a relação de Begbie com o filho), o que faz com que, apesar das cenas dramáticas, o filme não seja nada incomodativo (ao contrário do primeiro que ainda hoje causa insónias a alguns pais de adolescentes). Ainda, em Trainspotting 2, Boyle consegue fazer uma bela "remontada" da história, revelando, no final de contas, que pode não acreditar muito na juventude, mas deposita grandes esperanças na meia idade.

Trainspotting 2 > De Danny Boyle, com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova > 117 minutos