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'Encontrar o Sol', uma peça de teatro à beira-mar

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O Teatro do Eléctrico leva-nos à praia, com um texto aparentemente superficial, mas capaz de nos afogar nas dores da mentira, da solidão, do medo da morte, do amor e da falta dele. Encontrar o Sol estreia-se esta sexta-feira, 17, em Lisboa, e chega depois a Braga

Os atores Cucha Carvalheiro, Custódia Gallego, Luís Gaspar, Marques d’ Arede, Romeu Costa, Rita Cruz, Tadeu Faustino e Tânia Alves são encenados por Ricardo Neves-Neves

Os atores Cucha Carvalheiro, Custódia Gallego, Luís Gaspar, Marques d’ Arede, Romeu Costa, Rita Cruz, Tadeu Faustino e Tânia Alves são encenados por Ricardo Neves-Neves

Não há areia nesta praia, apenas as suas cores, diferentes como as da pele, mais escura à beira-mar, mais clara junto às oito espreguiçadeiras que se perfilam lado a lado. À direita, o Sol há de subir no cenário e, à esquerda, sentado na plateia, havemos de ouvir cantar o coro CoLeGaS, da ILGA. Encontrar o Sol, de Edward Albee, fecha o ciclo que o Teatro do Eléctrico tem dedicado às questões LGBT, com um texto menos conhecido do autor de Quem Tem Medo de Virginia Wolf?, sobre os amores e desamores entre dois homens e aqueles que os rodeiam. A peça, reconhece o encenador Ricardo Neves-Neves, não terá o mesmo impacto de quando foi escrita, em 1982. “Já não será um incómodo, mas acredito que ainda chame a atenção”, diz.

Na praia – lugar que nos faz felizes, mas capaz de tirar vidas – hão de encontrar-se oito personagens: os ex-namorados, as suas mulheres, o pai de um deles, casado com a mãe da mulher do filho, e ainda uma mãe e um filho adolescente. Há uma artificialidade grande nas suas relações e também naquele encontro que acontece três anos depois da separação dos dois. Todos sofrem, mas todos tentam, vagueando naquele sentimento de que fala um deles: “A praia e o mar causam-me uma tristesse…”

O enredo novelesco é carregado de humor e de angústias com uma mestria tal que nem damos por ela. Há beijos roubados, confissões, gargalhadas, lágrimas e muitas interrogações. “É uma peça sobre a mentira, a solidão, o amor e a falta dele, o medo da morte e da sociedade que nos põe à prova e que se impõe na nossa vida e na nossa intimidade”, resume Neves-Neves.

Os personagens movimentam-se numa coreografia que os afasta e os aproxima, os põe em simetrias e assimetrias, quase sempre em diálogos a dois ou a três, mas também em monólogos e canções românticas. A polifonia em palco é sublinhada por cenas curtas, variações de humor e repetições. E o diálogo mais dramático pode até cruzar-se com outro banal e risível.

“O que está antes da peça e o que vem depois parece o mais importante aqui, o durante parece apenas uma coisa à superfície”, nota o encenador. A nós, na plateia, o texto vai-nos queimando aos poucos, como faz o Sol num dia de praia. E nem havemos de dar pela onda gigante chegar.

Encontrar o Sol > Teatro Municipal São Luiz > R. António Maria Cardoso, 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > 17-25 fev, qua-sáb 21h, dom 17h30 > €5 a €15 > Theatro Circo > Av. da Liberdade, 697, Braga > T. 253 203 800 > 3 mar, sex 21h30 > €6, €12