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'O Duelo': Corpos estranhos em cima de um palco

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Com a fisicalidade das palavras de Bernardo Santareno, o coletivo Útero dá movimento a uma perversão de valores que vai além da nudez em palco. O Duelo estreia-se esta quinta-feira, 2, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Os figurinos, absolutamente dissonantes, invocam um ambiente neorromântico. Aos poucos, vão libertando os corpos na sua nudez

Os figurinos, absolutamente dissonantes, invocam um ambiente neorromântico. Aos poucos, vão libertando os corpos na sua nudez

Filipe Ferreira

Ao mesmo tempo que as palavras saltam da boca dos oito bailarinos em cena, os seus corpos procuram libertar-se de um peso opressivo que lhes condiciona os movimentos. “As palavras de Bernardo Santareno têm um grande impacto emocional e são muito físicas. Mesmo quando os bailarinos estão só a falar, há um movimento que se mantém”, diz Miguel Moreira, encenador do espetáculo que assinala os 20 anos do coletivo artístico Útero, em estreia no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

O Duelo (1961), do dramaturgo Bernardo Santareno, pertence ao universo rural da lezíria e das relações conturbadas entre senhores e subordinados. Nesta visão de Miguel Moreira d’O Duelo, o convívio com os touros desperta-nos para a dificuldade de o homem se conciliar com o seu lado mais primário e animal. O virtuosismo de bailarinos como Francisco Camacho e Romeu Runa põe em evidência gestos animalescos, uma verticalidade em permanente queda, como se a coluna vertebral não sustentasse mais o seu próprio peso. Neste contexto de “relações contorcidas”, em que se vive a impossibilidade amorosa entre pessoas de estratos sociais diferentes, questiona-se como as relações são construídas sobre interesses que vão além de sentimentos viscerais, como o desejo ou o amor.

Os figurinos, absolutamente dissonantes, invocam um ambiente neorromântico. Aos poucos, vão libertando os corpos na sua nudez. A música original de Pedro Carneiro contribui para uma tensão latente. “Acredito na dança e no teatro carregados de impurezas e de lugares sombrios. O som, muitas vezes, cria essa impureza na atmosfera e é magnético”, explica o encenador, que, na banda sonora, incluiu o tema dos The Cure Pornography. O Duelo é um espetáculo do agora que, como diz Miguel Moreira, “nos deixa perplexos perante uma estranheza que não é mais do que a nossa própria estranheza”. Haja coragem para a enfrentar.

O virtuosismo de bailarinos como Francisco Camacho e Romeu Runa põe em evidência gestos animalescos, uma verticalidade em permanente queda, como se a coluna vertebral não sustentasse mais o seu próprio peso

O virtuosismo de bailarinos como Francisco Camacho e Romeu Runa põe em evidência gestos animalescos, uma verticalidade em permanente queda, como se a coluna vertebral não sustentasse mais o seu próprio peso

Filipe Ferreira

O Duelo > Teatro Nacional D. Maria II > Pç. D. Pedro IV, Lisboa > T. 800 213 250 > 2-19 fev, qua 19h, qui-sáb 21h e dom 16h > €5 a €17