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'A Noite da Iguana', uma peça de teatro com febre alta

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Jorge Silva Melo regressa a Tennessee Williams e às suas personagens em carne viva – e enche o palco de dor e angústia, num sufoco que não nos é estranho. A Noite da Iguana estreia-se esta quarta-feira, 18, no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, e segue depois para o Porto, passando, em março, ainda por Aveiro, Almada e Loulé

O ator Nuno Lopes é o reverendo Shanon, afastado da Igreja, alcoólico, guia turístico de grupos de senhoras por países tropicais, acusado de se envolver com raparigas menores e numa constante batalha contra si próprio, mantendo a ilusão do regresso às homilias

O ator Nuno Lopes é o reverendo Shanon, afastado da Igreja, alcoólico, guia turístico de grupos de senhoras por países tropicais, acusado de se envolver com raparigas menores e numa constante batalha contra si próprio, mantendo a ilusão do regresso às homilias

Jorge Gonçalves

As palmeiras abanam lá atrás ao vento e o dia há de fazer-se cada vez mais cinzento, imerso num calor de 37 graus à sombra. Estamos “na porta de entrada da América Latina, nas traseiras dos Estados Unidos”, como se há de dizer mais adiante. O tempo é regado a cerveja e rum coco nesta “pensão barata, fora de época”, dirigida pela recém viúva Maxine, devidamente decotada e ladeada por dois jovens mexicanos que se esticam ao sol, como lagartos. Ali chegará o reverendo Shanon, afastado da Igreja, alcoólico, guia turístico de grupos de senhoras por países tropicais, acusado de se envolver com raparigas menores e numa constante batalha contra si próprio, mantendo a ilusão do regresso às homilias. E também Hannah, uma pintora de aguarelas e artista de caricaturas rápidas, que viaja com o avô, o mais velho poeta vivo ainda no ativo.

A Noite da Iguana é o texto de Tennessee Williams que faltava a Jorge Silva Melo encenar, depois de Gata em Telhado de Zinco Quente, Doce Pássaro da Juventude e Jardim Zoológico de Vidro. É impossível não nos lembrarmos do filme de John Huston, com Richard Burton como protagonista – mas neste palco tudo se passa num alpendre no cimo de uma colina, com uma vista entre o céu e o mar. E isso torna ainda mais sufocante esta angústia desta peça escrita em 1961, mas passada nos anos 40, por altura da queda de Paris e dos bombardeamentos de Londres (coisa que não existe no filme). Não faltam sequer uns alemães histéricos, de toalha de praia e calções de banho. “Os nazis são os únicos que estão felizes ali – um pouco como o nosso mundo agora: uns que acham que vão ganhar tudo, enquanto outros andam cheios de dúvidas sobre o que é a vida; uns estão todos contentes e outros carregados de angústias e em crises nervosas”, nota Jorge Silva Melo.

Como sempre, Tennessee Williams dá-nos personagens em carne viva, numa “escrita à flor da pele, cheia de dor”, assim a descreve Silva Melo. Há de haver chuva, tempestade e relâmpagos, numa história a que o encenador chama “a vertigem da febre” e que nos entra peito adentro como só no teatro acontece. No palco, está o ator Nuno Lopes, a liderar este arrebatamento, na pele de um pungente reverendo Shanon, capaz de nos dilacerar também. Jorge Silva Melo comentará: “É como escreve Baudelaire em Flores do Mal: ‘Tu, hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão”. São personagens que condenaríamos, mas que, no palco e na leitura, somos nós. É como um segredo íntimo entre o espectador/leitor e quem escreve e esse é o talento de Tennessee Williams, uma espécie de intimidade que nos custa romper. Ali está um homem que podia ser antipático mas que somos nós.”

A peça, que estreia em Lisboa, vai depois ao Porto e, em março, ainda passa por Aveiro, Almada e Loulé, junta, pela primeira vez no teatro, Silva Melo e Nuno Lopes – e quase parece impossível nunca antes terem trabalho juntos. “O Nuno trouxe uma grande seriedade à peça, a honestidade de não falsificar nada”, elogia o encenador. Já com a atriz Joana Bárcia, que chamou pela sua “inteligência e autoironia”, é um reencontro aguardado. E a Maria João Luís, Silva Melo quis dar “um papel solar e radioso”. Um elenco completado por alguns dos habituais cúmplices dos Artistas Unidos – onde não falta, claro, uma iguana debaixo do alpendre, a tentar sobreviver.

“O Nuno Lopes trouxe uma grande seriedade à peça, a honestidade de não falsificar nada”, elogia o encenador Jorge Silva Melo

“O Nuno Lopes trouxe uma grande seriedade à peça, a honestidade de não falsificar nada”, elogia o encenador Jorge Silva Melo

Jorge Gonçalves

Teatro Municipal São Luiz > R. António Maria Cardoso 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > 18 jan-5 fev, qua-sáb 21h, dom 17h30 > €5 a €15

Teatro Nacional São João > Pç. da Batalha, Porto > T. 22 340 1900 > 9-26 fev, qua 19h, qui-sáb 21h, dom 16h > €7,50 a €16

Teatro Aveirense > R. Belém do Pará, Aveiro > T. 234 400 920 > 4 mar, sáb 21h30 > €10

Teatro Municipal Joaquim Benite > Av. Prof. Egas Moniz, Almada > T. 21 273 9360 > 25-27 mar, sáb 21h, dom 16h > €13

Cine-Teatro Louletano > R. Dr. Frutuoso da Silva, Loulé > T. 289 414 604 > 31 mar, sex 21h30 > €10, €12