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Neste palco, olha-se o passado em África

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A nova criação de João Garcia Miguel, Nós Matamos o Cão Tinhoso, enfrenta o colonialismo português, tendo por base um clássico da literatura africana. Depois da estreia, em Guimarães, o espetáculo chega a Lisboa esta quarta-feira, 12

Em palco, os atores Frederico Barata e Sara Ribeiro conjugam a narrativa com o teatro mais conceptual e físico da companhia

Em palco, os atores Frederico Barata e Sara Ribeiro conjugam a narrativa com o teatro mais conceptual e físico da companhia

Queriam olhar para o passado recente de Portugal, enquanto país colonizador, não para fazer acerto de contas, mas para celebrar o quanto é partilhado com “o outro”. “Há algo, quase inexplicável, que nos une, uma confiança e uma alegria para lá de todos os desencantos e tristezas. É importante reconhecermos o que fizemos, de bom e de mau”, sublinha o encenador João Garcia Miguel, cuja companhia tem mantido relações com uma associação cultural angolana. Daí nasceu o ciclo Ondas Africanas, projeto de intercâmbio entre atores, músicos e artistas visuais africanos e portugueses, cujo primeiro espetáculo tem por base (e título) o livro de contos Nós Matamos o Cão Tinhoso. Uma obra do moçambicano Luís Bernardo Honwana, escrita em 1964, quando esteve preso pela polícia política portuguesa, expondo a exploração e a segregação racial ou as distinções de classe e de educação.

“Apesar de fazer parte do Plano Nacional de Leitura, é pouco conhecido entre nós. Foi um prazer descobri-lo”, conta Garcia Miguel. A peça parte de dois contos: um mais extenso que dá nome ao livro, narrado por um menino que se debate por ter morto um cão velho, vadio e doente; e Inventários de Móveis e Jacentes, em que o menino descreve a casa onde vive e o seu quotidiano de pobreza. “A criança traz uma carga simbólica acrescida, oscila-se entre a crueldade e a ingenuidade das ações”, nota o encenador. “Recuperamos o que em nós é africano, não no sentido antropológico, mas de uma forma quase mediúnica, no trabalho corporal dos atores.” Sara Ribeiro e Frederico Barata circulam numa dimensão onírica, entre Europa e África, o interior e o exterior, a realidade e o sonho. Um lugar onde a redenção é possível.

Teatro Ibérico > R. Xabregas, 54, Lisboa > T. 21 868 2531 > 12-15 out, qua-sáb 21h30 > €10