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A toque de caixa em 'Uníssono – Composição para Cinco Bailarinos'

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A nova coreografia de Victor Hugo Pontes recusa a narrativa e olha a forma como corpos diferentes repetem os mesmos movimentos – exatamente como fora do palco, em sociedade. Depois da estreia em Lisboa, Uníssono – Composição para Cinco Bailarinos chega ao Porto esta sexta-feira, 7

Os bailarinos André Cabral, Bruno Senone, Elisabete Magalhães, Teresa Alves da Silva e Valter Fernandes interpretam simultaneamente a mesma partitura coreográfica

Os bailarinos André Cabral, Bruno Senone, Elisabete Magalhães, Teresa Alves da Silva e Valter Fernandes interpretam simultaneamente a mesma partitura coreográfica

José Caldeira

Victor Hugo Pontes sempre trabalhou o coletivo, uma ideia de massa e de corpos, mas nunca o fez de forma tão abstrata e formal como agora. O corte é assumido pelo coreógrafo. “Venho do teatro e as minhas peças estavam carregadas de uma dramaturgia muito forte. Apesar de não haver uma narrativa linear, existiam sempre linhas narrativas e o movimento surgia da ação, do conflito. Aqui nunca há conflito. São cinco pessoas a executar um solo, sozinhos com eles mesmos. É a recusa da narrativa por completo”, sublinha. Em Uníssono – Composição para Cinco Bailarinos, uma coprodução Nome Próprio, Teatro Municipal São Luiz e Teatro Municipal do Porto, André Cabral, Bruno Senone, Elisabete Magalhães, Teresa Alves da Silva e Valter Fernandes interpretam simultaneamente a mesma partitura coreográfica. Até que ponto é que este grupo é um coletivo ou a soma das partes?, questiona-se. E estará a individualidade dos bailarinos obliterada?

No cenário branco, destacam-se dois blocos de cada lado do palco, de onde saem ou onde se escondem os bailarinos, criando um jogo de visível e invisível. A coreografia, essa, repete-se ad aeternum, como num ritual, até à exaustão. “Procurei um corpo atlético, a ideia de endurance física, quase desportiva [ter criado a peça enquanto via os Jogos Olímpicos influenciou, confessa]. Mas também não quis a perfeição da natação sincronizada, queria pessoas com físicos e energias muito diferentes, para ver como conseguiam fazer a mesma coisa, ao mesmo tempo”, explica Victor Hugo Pontes. E se a dança contemporânea, durante muito tempo, recusou o uníssono nas suas composições, procurando um movimento livre e espontâneo, aqui joga-se com a castração imposta pela sociedade. “Inconscientemente, vamos sendo formatados para respondermos exatamente da mesma forma e sermos pessoas dentro de caixas ou de moldes”, nota. Uma ideia exposta em movimentos a toque de caixa, realçados pela música que Hélder Gonçalves, dos Clã, criou para o espetáculo.

A récita de dia 7, no Teatro Municipal Rivoli, no Porto, terá uma conversa pós-espetáculo com Victor Hugo Pontes, moderada pelo intendente António Leitão da Silva, comandante da Polícia Municipal do Porto, sobre a ideia de um grupo organizado, que segue as mesmas regras, formalidades e ordens, mas que, mesmo assim, mantém a sua individualidade.

Uníssono – Composição para Cinco Bailarinos > Teatro Municipal Rivoli > Pç. D. João I, Porto > T. 22 339 2201 > 7-8 out, sex 21h30, sáb 19h > €7,50