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'Loucamente': 'On the road' bipolar

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Um filme eletrizante, entre Thelma e Louise e Bonnie and Clyde, entre a loucura e a psicanálise, com as emoções à flor da pele. Loucamente, do realizador italiano Paolo Virzi, já se estreou nos cinemas

Micaela Ramazzotti, que contracena com Valeria Bruni Tedeschi, é a mulher do próprio realizador Paolo Virzi. Ambas têm desempenhos notáveis, de uma espontaneidade só ao alcance de grandes atrizes

Micaela Ramazzotti, que contracena com Valeria Bruni Tedeschi, é a mulher do próprio realizador Paolo Virzi. Ambas têm desempenhos notáveis, de uma espontaneidade só ao alcance de grandes atrizes

Paolo Ciriello

É o Bonnie and Clyde dos quadros psiquiátricos... e com final feliz. É um Thelma e Louise à italiana, entre o frenesim e a depressão. É um on the road bipolar e sem carta para ligeiros. É a mais surpreendente obra do italiano Paolo Virzi, realizador experiente, mas pouco conhecido em Portugal. Um filme de atrizes, com uma deslumbrante Valeria Bruni Tedeschi num papel frenético e louco. Loucamente, assim se chama em português, recebeu os principais prémios do Nastro d'Argento (o mais importante prémio do cinema italiano) e agora chega às salas portuguesas.

Tal como as suas personagens, duas mulheres internadas por loucura, o filme consegue tirar partido da sua bipolaridade. É raro encontrar de forma tão coerente, numa só obra, espaço para a comédia e para a tragédia, com uma tão emocionante superfície de aventura e revelação. Loucamente é, de facto, uma catadupa de emoções, levadas ao limite, porque o limite é a condição básica das personagens que encara. Beatrice e Donatella são doentes psiquiátricas, sob custódia, pois praticaram crimes graves em consequência do seu estado. Envolvem-se numa amizade copulativa que traz melhorias clínicas para ambas. O corpo médico, extremamente afetuoso e moderno, decide dar-lhes autorização de saída (para um trabalho exterior). Elas aproveitam e fogem.

Após um primeiro impulso extravagante, partem em direção ao passado, numa súbita vontade de reconstrução da sua própria psique. No fundo, é a viagem interior da psicanálise que adquire contornos físicos e palpáveis, num on the road feito em duas camadas: do lado de dentro e do lado de fora, mas sempre em direção ao despiste. A viagem é, na sua essência, libertadora, mas esbarra na realidade. Até certo ponto, Loucamente é um filme feminista. Não por focar duas mulheres, mas por apontar, sem equívocos maiores, a culpa da sua loucura à (fraca) qualidade dos homens que conheceram. Elas são vítimas profundas das suas relações amorosas com homens de má-fé, e são exploradas por outros homens de mente pequena, sem que haja margem para o enquadramento social. São loucas, mas também enlouquecidas.

De enaltecer com todos os aplausos o desempenho das atrizes, em especial Valeria Bruni Tedeschi, que faz um papel de assombrosa espontaneidade e entrega. Mas também Micaela Ramazzotti, o seu contraponto perfeito.

Loucamente > De Paolo Virzi, com Micaela Ramazzotti, Valeria Bruni Tedeschi > 118 min