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Exposição de Arte Vudu: Cá se fazem, cá se pagam

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O Haiti é aqui, cantava Caetano. Talismãs e objetos religiosos, não canónicos, também são arte nesta coleção de arte bruta em exposição na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, em Lisboa

A dita maior coleção de arte bruta da Península Ibérica, constituída por cerca de mil obras recolhidas por Antonio Saint Silvestre e Richard Treger ao longo das últimas décadas, está correntemente em depósito no Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory, em São João da Madeira, que também abriga a Coleção Norlinda e José Lima

A dita maior coleção de arte bruta da Península Ibérica, constituída por cerca de mil obras recolhidas por Antonio Saint Silvestre e Richard Treger ao longo das últimas décadas, está correntemente em depósito no Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory, em São João da Madeira, que também abriga a Coleção Norlinda e José Lima

Na casa de claridade e de afetos que é a de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, é surpreendente, um choque anímico, encontrar agora estas figuras da escuridão, espectros sinistros com propósitos funestos asseguram-nos o folclore em torno das figuras de vudu. Uma efígie espetada com um pionés (ou dois ou três...) é remédio para castigar os maus da fita, garantem os filmes de segunda e anedotas populares... E, no entanto, algo de transcendente se move aqui. O Haiti é uma das geografias que reivindica o vudu como religião oficial, a par do catolicismo. Defendem os devotos e crentes desta prática de origem tribal africana que as estatuetas macabras são memento mori – isto é, lembram-nos a fugaz beleza da vida e a importância de viver o momento. Ainda que a ideia vingadora no imaginário seja os bonecos, furados com agulhas certeiras, amaldiçoando vítimas incautas com maleitas misteriosas, magia de mão.

São precisamente do Haiti algumas das peças mais representativas da coleção arrecadada pelo ex-pianista Richard Treger e pelo artista Antonio Saint Silvestre, que sempre se deixaram fascinar pela arte “marginal”, com raízes e práticas distantes da produção para o white cube, valorizada pelo mercado da arte instituído. Nomeadamente, um dos destaques da exposição Arte Vudu da Coleção Treger/Saint Silvestre é um Bizango – “boneco com caveira humana, de ar agressivo, representativo das sociedades secretas Bizango do Haiti e que personifica o poder dos seus guerreiros”. Está ao lado de criaturas amarradas a postes de madeira, cenas de teatros de sombras, carantonhas medonhas recortadas no ferro – galeria dos horrores transfigurada por uma “arte da transformação” realizada pelos Bosmetal (trabalhadores de metal) ou Bos pièsanfè, que esculpem madeiras, chapas de metal de bidões de gasolina, pregos e sucata. Peças raras, e quase nunca vistas num museu.

Arte Vudu da Coleção Treger / Saint Silvestre > Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva > Pç. das Amoreiras, 56, Lisboa > T. 21 388 0044/53 > até 22 jan, ter-dom 10h-18h > €5