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‘Julieta’, uma tragédia almodovariana

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Pedro Almodóvar, em registo pesado, dramático, choroso, no seu melhor filme desde Fala com Ela

Pedro Almodóvar faz parte daquela pequena elite de realizadores que não precisam de assinar os seus filmes para sabermos que lhes pertencem. Porém, olhando para as suas duas últimas obras, dá ideia que o cineasta espanhol quis fazer a prova contra as acusações que alguns lhe fazem de falta de versatilidade. O anterior Os Amantes Passageiros (2013), porventura o pior filme da sua carreira, era uma comédia gay, tola, com coreografias kitsch dançadas por emplumados comissários de bordo e uma liberdade descontrolada, de excesso de excessos, que só encontra paralelo na sua primeira longa, Pepi, Luci, Bom... (1980).

Ao invés, Julieta é um pesado drama, choroso, exacerbado, em que os raros apontamentos de humor não prevalecem sobre o peso trágico do enredo, próximo de Tudo Sobre a Minha Mãe, mas ainda mais trágico, e sem comic relief... Ou talvez não seja tanto assim. Porque, ao contrário do que Nanni Moretti consegue fazer (por exemplo, em O Quarto do Filho), a tragédia de Almodóvar mantém um estilo vincado, uma espécie de gramática pessoal, que o afasta do realismo.

Almodóvar usa na tragédia elementos semelhantes aos das comédias, como o gosto pelos excessos (aqui quase em estilo camiliano) e a apropriação natural dos jogos de coincidências, que levam o filme para um universo metafórico paralelo à realidade – há uma professora de tragédia grega que vive uma tragédia ao envolver-se com um pescador sex symbol que morre numa tempestade. E a sucessão de tragédias, na reflexão sobre a condição maternal (tema recorrente em Almodóvar), acaba, por ironia, por criar um desfecho felizmente infeliz ou infelizmente feliz.

Logo no início de Julieta, curiosamente, Lisboa aparece descrita como uma miragem. O eldorado para onde as personagens têm oportunidade de fugir dos seus destinos trágicos, mas subitamente o recusam, decidindo aceitar a dolorosa espera que a vida lhes reserva. Fica a ideia que, se Almodóvar um dia decidir filmar em Lisboa, o filme terá um pouco de fado, mas um final feliz.

Julieta > de Pedro Almodóvar, com Adriana Ugarte, Rossy de Palma, Emma Suárez, Darío Grandinetti, Daniel Grao, Michelle Jenner, Inma Cuesta > 99 min