Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

'Se as Montanhas se Afastam': O desoriente ocidental

Ver

  • 333

Se as Montanhas se Afastam é um retrato da China contemporânea na encruzilhada entre o capitalismo e as suas tradições milenares

O filme do realizador chinês Jia Zhangke, que esteve em destaque no último Festival de Cannes, é um grito de alerta, feito em metáforas fáceis e imagens deslumbrantes

O filme do realizador chinês Jia Zhangke, que esteve em destaque no último Festival de Cannes, é um grito de alerta, feito em metáforas fáceis e imagens deslumbrantes

Go West, this is our destiny (Vai para Oeste, este é o nosso destino)”. O filme começa no Réveillon, com um grupo de chineses a dançar, em comboio, bracejando de alegria, a música dos Pet Shop Boys. O pré-genérico é a melhor sinopse de Se as Montanhas se Afastam, de Jia Zhangke, que esteve em destaque no último festival de Cannes. Todo o filme, que começa no final dos anos 90, e corre até quase à atualidade, é uma parábola sobre a ocidentalização da China moderna. Na cena seguinte, vê-se um tradicional dragão chinês a percorrer as ruas de uma cidade, provavelmente sem metade do entusiasmo. O filme foca a encruzilhada entre esses dois mundos: a irresistível sedução pelo Ocidente e a força da tradição. Como se a China tivesse dois amores. E, na verdade, Shen, que até certo ponto representa a China, também os tem.
Encontra-se dividida num jogo de seduções: dois pretendentes, amigos de infância, que se esgrimem num duelo desigual. Por um lado, Liangzi, mineiro pobre mas honesto e afável, que a parece entender do fundo do coração. Por outro, Zhang, um novo rico, excêntrico, cheio de vícios do capitalismo e do Ocidente, convencido de que o dinheiro tudo pode comprar. O primeiro representa as virtudes da velha China. O segundo, a corrosão do capitalismo selvagem. Zhang leva a melhor... para mal maior da China contemporânea.
Mas nesta história, de dimensão quase epopeica, ninguém sai a ganhar. A segunda e terceira partes do filme mostram as graves sequelas das tentações do capitalismo selvagem, na geração seguinte. Todas as personagens entram em rota de destruição: Liangzi numa destruição sobretudo física, Shen e Zhang na destruição psicológica, revelada não só no divórcio mas sobretudo no filho, ironicamente chamado Dollar.
Dollar que é retirado à mãe para ir estudar num colégio internacional na Austrália, desaprende o chinês, o que torna a comunicação com o próprio pai inviável. O filho do capitalismo obsceno é um feitiço que se vira contra o feiticeiro, numa ironia constrangedora. Violentamente desenraizado, sem mãe e, no fundo, sem pai, Dollar anda à deriva em busca de uma identidade que, já sabemos, jamais irá encontrar. Ele é a nova China que entre o este e o oeste acaba por perder o norte. A emergência económica fulminante pode ter um preço humano devastador. E o realizador, em metáforas fáceis e imagens deslumbrantes, faz do seu filme um grito de alerta onde, ao mesmo tempo que se repete “Go West”, se mostra que esse não é o melhor caminho.

Se as Montanhas se Afastam > de Jia Zhangke, com Tao Zhao, Yi Zhang, Jing Dong Liang > 131 min