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Brincadeiras silenciosas

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O Projeto Vicente está de regresso com intervenções do artista urbano Miguel Januário e do artista visual e músico Rochus Aust: O jogo da glória (ou a Vida na óptica do utilizador)

Karina Alves

Na estreita Travessa do Marta Pinto, ali mesmo junto aos Pastéis de Belém, a Ermida de Nossa Senhora da Conceição há de pintar-se de negro. A fachada preta terá a assinatura do artista urbano Miguel Januário (MaisMenos), numa intervenção inserida na edição deste ano do Projeto Vicente, organizado pela Travessa da Ermida. Cá fora, hão de estar presos estendais nas paredes: feitos em arame farpado e com camisolas brancas invertidas e penduradas. “O povo adormecido ao sabor do vento”, descreve Miguel Januário, que quis chamar para aqui os jogos territoriais e fronteiriços, o luto e a ideia de um povo virado de cabeça para baixo, branqueado e vazio. A ideia, diz o artista, é que as pessoas tirem dali as camisolas e as preencham com os seus corpos. “É uma perspetiva mais poética sobre povo, sobre jogos e sobre glória”, acrescenta Miguel Januário, convidado para integrar a edição do Vicente ’16, com o título O jogo da glória (ou a Vida na óptica do utilizador).

“A edição de 2016 do Projeto Vicente dedica-se ao princípio lúdico e criativo que está por detrás de uma cidadania informada pela imaginação”, escreve o curador Mário Caeiro. “A cidadania é isto mesmo: o estarmos em jogo, participando no dispositivo social, cultural, urbano. E neste dispositivo, o jogo supremo é – ainda – a arte. Por isso a arte e os seus jogos têm de fazer parte da cidade e ir mudando as regras à cultura”, acrescenta. É exatamente de brincadeiras que se faz a outra intervenção do Vicente’16. O alemão Rochus Aust, que já participara na edição do ano passado com uma “orquestra de eletricidade”, regressa à Travessa da Ermida, desta vez com um concerto na rua e uma instalação na Ermida: três círculos formados por brinquedos (alguns com que podemos brincar), onde se joga depois com a projeção vídeo e as sombras dos visitantes, e com o confronto entre amizade e violência. O projeto que, explica o curador, “encena um conjunto de encontros inusitados” entre São Vicente, Casanova e Schiller: “A instalação procura humanizar o nosso próprio imaginar dos papéis e lugares sociais, celebrando a humanidade através dos tempos e em todas as suas nuances.” Os brinquedos estarão ali até dia 30 de outubro – já os arames farpados, esses, mesmo sem camisolas, hão de ficar até ao final de março, a interpelar-nos silenciosamente.

A edição deste ano do Vicente completa-se com um passeio conduzido por Pedro Santa Rita, a 17 de setembro, e um happening performativo de Filipe Garcia, a 1 de outubro, ambos às 15 horas, sujeitos a marcação prévia e com início na Ermida. Para o dia 29 está marcada a finissage de Rochus Aust e uma conversa com os artistas.

O jogo da glória (ou a Vida na óptica do utilizador) > Ermida de Nª Srª da Conceição > Tv. do Marta Pinto, 21, Lisboa > T. 21 363 7700 > até 30 out, seg-sex 10h-13h, 14h-17h, sáb-dom 14h-18h (Rochus Aust), até 30 mar (Miguel Januário) > grátis