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‘Rio’, pelos Artistas Unidos: Desamores e uma cabana

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Jorge Silva Melo encena uma peça de teatro soturna que nos envolve entre um realismo sem pressas e uma misteriosa fantasia. Para ver no Teatro da Politécnica, em Lisboa, a partir desta quarta-feira, 14

“Este é um papel para o Ruben Gomes”, percebeu logo Jorge Silva Melo quando decidiu encenar Rio, de Jez Butterworth

“Este é um papel para o Ruben Gomes”, percebeu logo Jorge Silva Melo quando decidiu encenar Rio, de Jez Butterworth

Jorge Gonçalves

Estamos numa cabana de madeira junto a um rio. Ele, um pescador que todo o ano sonha com aquela noite sem lua em que se apanham as trutas no rio. Ela, a sua nova namorada, na cabana pela primeira vez, aparentemente estranha a todo aquele universo. Ele, um homem solitário que ali leva a mulher por quem está apaixonado… ela, uma mulher que ele vê como única, mas que no guião é substituída depois por uma outra mulher – uma personagem interpretada por um atriz e depois por outra e, mais tarde, por uma outra ainda. Ou serão três personagens diferentes? E é aí que aquilo que parecia uma bonita história de amor se vai transformando em desamores vários, reais ou nem por isso. A cada espectador caberá definir a história em que quer acreditar neste Rio. Há um lado de thriller na peça, que nos vai tirando o tapete ao mesmo tempo que nos envolve numa trama onde não sabemos sequer quem são aqueles personagens e se são de carne e osso ou apenas fantasmas.

Mas não há como fugir daquela cabana de madeira. O protagonista (talentoso Ruben Gomes) parece preso nela e nós espectadores também não nos podemos refugiar na nossa cadeira na plateia – o palco está mesmo ali e toda aquela angústia que paira no ar chega-nos pelos relatos da pesca noturna das trutas, pelos desencontros entre ele e ela(s), pela noite escura e sem lua que adivinhamos lá fora, pelo ambiente soturno, pelo peixe que será amanhado diante dos nossos olhos, esventrado sem piedade às mãos dele, que vão ficando ensanguentadas mas que nunca hesitam, pelo cheiro de peixe assado que sairá depois do forno, pelas namoradas que podem ou não ser a mesma, pelo que se confessa e pelo que fica por revelar, pela envolvente música de Donovan, com o poema de W.B. Yeats The Song Of Wandering Aengus. O realismo de mãos dadas com uma misteriosa fantasia.

Será a primeira vez que Rio sobe a um palco numa tradução do inglês, depois de já ter sido feita em Londres e Nova Iorque (com Hugh Jackman como protagonista). O texto é do dramaturgo e argumentista inglês Jez Butterworth, autor de peças de teatro como Mojo e Jerusalem e de filmes como Spectre, o 007 de Sam Mendes, escritor próximo de Harold Pinter. “A influência de Pinter é enorme: a narrativa desencontrada, a reflexão sobre o tempo”, aponta o encenador Jorge Silva Melo. “O tempo e a memória são das coisas mais difíceis de fazer em teatro”, sublinha ainda. E Silva Melo evocou para esta cabana junto ao rio filmes e peças dos seus afetos, como O Desporto Favorito dos Homens, de Howard Hawks, Rebecca ou Vertigo, de Alfred Hithcock. Personagens esquivos, tramas esquivas. E nós ali agarrados à cadeira.

Vânia Rodrigues é uma das três atrizes a representar a namorada durante a peça. Inês Pereira e Maria Jorge são as outras duas

Vânia Rodrigues é uma das três atrizes a representar a namorada durante a peça. Inês Pereira e Maria Jorge são as outras duas

Jorge Gonçalves

Rio > Teatro da Politécnica > R. da Escola Politécnica, 54, Lisboa > T. 96 196 0281 > 14 set-22 out, ter-qua 19h, qui-sex 21h, sáb 16h e 21h > €6, €10