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Imagens militantes na Casa da Achada

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Há duas novas exposições para ver na Casa da Achada, em Lisboa: Giuseppe Morandi – Antologia, com 68 imagens do fotógrafo italiano, e Urban Amnesia, da norte-americana Nancy Goldring

Giuseppe Morandi – Antologia

Esta Itália retratada em pretos e brancos nostálgicos emerge de uma militância fotográfica assumida em prol da dignidade da classe camponesa que Guiseppe Morandi conhece bem. Os retratados são identificados, o retratista não impõe uma distância pretensamente objetiva, o resultado quer-se distante de representações românticas, conceptuais ou instrumentalizadas – ainda que qualquer olhar exprima “uma” verdade... Morandi, filho de camponeses, nunca teve uma câmara fotográfica sua: trabalha com máquinas Rollei e Yashica emprestadas pela dona de uma loja de fotografia da sua Piadena natal.

A ausência de rótulo profisssional não o dissuadiu de, nas últimas seis décadas, documentar a Itália do pós-Segunda Guerra Mundial – tarefa começada na vizinhança da sua casa na planície do Pó, e, hoje, levada até outras realidades como as dos imigrantes. Guiseppe Morandi Antologia permite ver, pela primeira vez como um todo, este corpo de trabalho, político e amparado pela sua comunidade. Estão patentes 68 imagens, escolhidas a quatro mãos com Paolo Barbaro, professor de história da fotografia da Universidade de Parma, que sublinha, aqui, o empenho deste fotógrafo autodidata em “devolver uma imagem verdadeira, uma dignidade que era excluída de todas as narrações sobre esse mundo”.

À exposição, juntam-se dois documentários de Giuseppe Morandi: Il Faló di Pescarolo (sexta, 26, às 17 horas) e Peto (sábado, 27, às 17 horas); três conversas sobre a memória; e três concertos (sexta, 26 às 22 horas, sábado, 27, e domingo, 28, às 18 e 30).

Urban Amnesia

Nancy Goldring deparou-se com uma janela indiscreta. Não o rectângulo cinematográfico dos mistérios hitchcockianos, antes uma janela doméstica, autêntico observatório urbano. Durante quase um ano, a artista americana foi testemunha de uma destruição enquadrada – um ato de esquecimento emoldurado. Abrigada no seu espaço, observou um edifício industrial do século XIX, seu vizinho durante 25 anos, a ser súbita e eficazmente demolido. No seu lugar, surgiu velozmente aquilo que ela chama de “arranha-céus de luxo prefabricado”. Toda implacável organicidade de Nova Iorque, uma grande cidade que não dorme, que não se cansa, que está continuamente em movimento, mutação e autofagia, serviu-lhe para uma reflexão sobre a memória, sobre a forma como a história é facilmente soterrada. Escombros e cinzas, analogia e metáfora, o novo e a perda...

A leitura é (demasiado) fácil, mas Goldring apropriou-se da experiência, num registo continuado que aspira à catarse e à performance. As seis obras de Urban Amnesia começaram com um lápis: “Durante quase um ano desenhei o drama que decorria em frente da janela do meu atelier. O que os meus desenhos têm apanhado vai para além da história do desenvolvimento urbano. Tornaram-se uma investigação sobre a própria transformação – minha e da cidade”, descreve a artista. Os desenhos foram, posteriormente, condensados numa única colagem, à maneira de uma estrutura arquitetónica, sublinha, em que se fundiram fotografia e grafismo.

Casa da Achada > R. da Achada, 11, r/c, Lisboa > T. 21 887 7090 > até 25 set, seg, qui-sex 15h-20h, sáb-dom 11h-18h