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A verdade invisível na série "Chernobyl", na HBO

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Negar a dimensão da tragédia provocada pelo mais catastrófico desastre nuclear de sempre foi a prioridade da nomenklatura soviética – em vez de salvar vidas. A série Chernobyl é sobre combates desiguais

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Na série destacam-se dois cientistas: Valery Legasov (Jared Harris), inspirado no físico nuclear que chefiou a investigação oficial do acidente, e Ulana Khomyuk (Emily Watson), uma personagem ficcional que homenageia todos os cientistas envolvidos na missão

Na série destacam-se dois cientistas: Valery Legasov (Jared Harris), inspirado no físico nuclear que chefiou a investigação oficial do acidente, e Ulana Khomyuk (Emily Watson), uma personagem ficcional que homenageia todos os cientistas envolvidos na missão

“Acontecimento monstro.” A Nobel da Literatura Svetlana Alexievich refere-se desta forma ao maior desastre nuclear da História na obra Vozes de Chernobyl (Elsinone, 2016). É este acontecimento monstro, ocorrido há 33 anos na Ucrânia, que a série Chernobyl (HBO) reconstitui – com várias liberdades criativas. Uma das histórias mais comoventes é decalcada do livro – e levou a escritora a questionar publicamente a sua ausência dos créditos da série… Lyudmilla Ignatenko permaneceu no hospital, ao lado do marido, um dos primeiros bombeiros a reagir ao acidente, até à hora da sua morte, provocada pela exposição à radiação. Omitiu que estava grávida. As consequências seriam trágicas.

Chernobyl mostra como a população foi vítima da decadência da União Soviética e, também, de uma permanente campanha de desinformação. Tal como a radioatividade, os “factos alternativos” mantêm-se, hoje, igualmente perigosos... Nesta batalha pela verdade – e pela derrota de um inimigo invisível – destacam-se dois cientistas: Valery Legasov (Jared Harris), inspirado no físico nuclear que chefiou a investigação oficial do acidente, e Ulana Khomyuk (Emily Watson), uma personagem ficcional que homenageia todos os cientistas envolvidos na missão. São os apparatchiks – muitos comprometidos cegamente com o regime, outros nem tanto... – os verdadeiros protagonistas desta história. O argumentista e realizador norte-americano Craig Mazin é o criador da série, mas a realização dos cinco episódios ficou a cargo do suíço Johan Renck.

O ambiente criado é profundamente imersivo, ao estilo dos melhores thrillers. As cores desbotadas e os cenários soturnos facilitam a viagem no tempo. O ruído dos dosímetros de radiação transforma-se em banda sonora. Os dramas da série – seja a evacuação de 50 mil pessoas da cidade de Pripyat ou a chacina de todos os animais domésticos radioativos – expõem a fragilidade da Humanidade e os seus dilemas mais íntimos. Valery Legasov é o herói trágico, entre muitos heróis anónimos: “Todas as mentiras que contamos incorrem numa dívida para com a verdade. Mais cedo ou mais tarde, essa dívida é paga.” Por vezes, o preço é demasiado alto.

Chernobyl tem sido aplaudida pela crítica e tornou-se a série mais bem classificada pelos utilizadores da página de cinema IMDB. O sucesso é tal que os especialistas dos guias de viagem Lonely Planet estimam que as reservas turísticas na região tenham aumentado 40% desde a estreia.

Chernobyl > 5 episódios, disponíveis na plataforma de streaming HBO