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TAXI! TAXI!

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Lembram-se de "Chiclete" ou "Cairo"? O grupo mítico dos anos 80 está de regresso com um novo álbum. Sem saudosismos. ENTREVISTA e GALERIA DE FOTOS

Florbela Alves

Os TAXI estão de volta com um novo disco, 22 anos depois. O mítico grupo do Porto - cujo primeiro álbum se tornou no primeiro ouro do rock português - lança esta sexta, 22 (o dia não surge ao acaso), o álbum "Amanhã". Os quatro músicos garantem que "este é o melhor depois do primeiro ["Táxi"]". E que ainda ficam com uma série de músicas "boas" em carteira, suficientes para outro trabalho. A Visão Sete conversou com eles na Casa da Música (CdM). Precisamente o local que os juntou, de novo, há três anos, num concerto de S. João, acabando por despertar o bichinho. A partir daí ensaiam todos os dias. "Somos muito profissionais", garantem. Adeptos do FC Porto, confessam adorar a cidade. Velhos e novos fãs aguardam o concerto de apresentação do novo disco, a 5 de Junho, no Coliseu do Porto. Os bilhetes vão de vento em popa e eles, confessam, "nem estavam à espera".

Qual foi o momento em que decidiram: "Vamos Voltar"? Foi aqui na CdM?

João Grande - Acho que foi.

Henrique Oliveira - Durante anos andávamos um bocadinho para cada lado e aqui correu tão bem, o local que serviu de emblema foi este. Foi uma noite muito boa.

Sentiram o público entusiasmado...

Rodrigo Freitas - Completamente, nem estávamos à espera.

HO - No início, até nem estava muito entusiasmado com a ideia e foi mesmo aqui que achei valer a pena fazermos um regresso. Foi uma noite mágica.

Durante todos estes anos, iam-se juntando?

JG - Em jantares, aniversários (risos)... Agora a sério, fizemos uma série de concertos importantes, nas Queima das Fitas, aquele no Coliseu do Porto para o salvar da IURD. Quando havia alguma coisa de interessante.

HO - Mas tivemos muitos anos sem tocar...

JG - No concerto de S. João foi a primeira vez que os meus filhos me viram em palco. Mas tive que os obrigar e dizer: "Têm que estar ali à meia-noite". Eles contrafeitos, lá estiveram.

HO - Eu tenho uma história nesse dia do concerto do Coliseu. Nunca tinha dito aos meus filhos, e eles nem tinham bem a noção de que tinha sido músico. Obriguei o mais novo, que na altura tinha 8, 9 anos, a ir ver o concerto. No final, perguntei-lhe: "Gostaste?", e ele muito encolhido disse: "Oh pai, que vergonha, tu aos saltos em cima de um palco" (risos).

JG- Nesse, os meus adormeceram cinco minutos antes de tocarmos.

E hoje, como vêm o vosso regresso?

JG: Os meus só vão obrigados. Já lhes disse: no Coliseu estão intimados a ir. Eles não querem saber. Quando chegava a casa, depois do estúdio, com uma música nova, pedia-lhes para ouvirem e eles não estavam nem aí. Só acham piada quando os amigos vão. A que gosta mais de ir é a mais velha do Rodrigo que é baterista.

HO - Os meus até gostam, andam sempre em concertos.

RF - A minha filha mais velha não mostra entusiasmo pelas músicas, mas gosta do regresso do grupo.

Como é este novo disco? Continuam a ter temas de intervenção?

HO - Foi o maior problema deste disco, mas temos um tema, é o nosso mais interventivo, o "Utopia Nacional", escrito pelo Rodrigo.

JG - E foi uma música que esteve quase para ser deitada fora. Não estava a resultar muito bem.

RF - Fala sobre uma utopia, é um manifesto, uma ideia impossível de concretizar. Foi uma das primeiras músicas a ser escrita. Quando a escrevi estava a pensar nos políticos a subirem a um palanque e a prometerem coisas à toa.

JG - Fala numa casa para toda a gente...

RF - Em fazer só o que nos dá prazer. Ser dono ou patrão

JG - O que nos deu mais dor de cabeça foram as letras. Os temas que abordávamos nos primeiros discos não faziam sentido abordarmos agora: "O Ás dos Flippers" ou o "T.V.W.C."

HO - A realidade dos anos 80 era outra e quando se tem 20 anos há outro tipo de coisas...

RF - Agora é preciso ter mais cuidado com as palavras que dizemos porque há algumas que já não dizem a cara com a careta. Não vamos pôr "Está tudo na boa", isso está ultrapassado.

HO - As letras deram-nos uma dificuldade nova, mas por outro lado, em termos de criação, as músicas são muito mais bem construídas do que as primeiras. Houve muita diferença: o tipo de som, de construção musical, acabámos por ter uma nova via, com muita capacidade criativa.

JG- Acho que desde o primeiro disco que não tínhamos musicas tão boas...

RF- Há mais tecnologia, mas tentamos manter a música com um nível de humanização muito grande.

HO - O disco é todo tocado, não tem electrónica. Parece gravado nos anos 70.

Como vêem esta mistura de público que vos ouve? Alguns ainda nem eram nascidos....

RF - É espectacular...

Rui Taborda - Ainda há dias falámos sobre isso. É estranho como é que o público sabe as músicas como se tivessem saído ontem, porque estamos a falar na faixa dos 15 anos a cantar do princípio ao fim. E pensamos: "Como é possível?".

JG - Só deve haver uma explicação, os pais põem o disco em casa e eles ouvem. Há jovens com 17, 19 anos que têm vindo aos concertos, acham uma piada enorme às canções antigas e as cantam de cor, além destas novas como o "Não sei se Sei", eu ainda nem sei a letra toda e eles já a sabem... é um mistério incrível.

RT- E aqui na CdM cantámos temas menos conhecidos, como o "Não Mais", e eles sabiam a letra...

RF - Tem piada a nossa música mais conhecida [Chiclete], falar da "sociedade de consumo imediato" e a música ter perdurado este tempo todo...

JG - Temos muito a dever às Docemania (risos), que criou uma versão da "Chiclete". É a música delas mais ouvida.

HO - Na altura escrevi a "Chiclete" num papel quadriculado, no café, no intervalo da faculdade. Na época, havia o jornal Se7e, uma referência muito grande, no qual era grande fã das crónicas do Miguel Esteves Cardoso. Houve uma polémica qualquer, e ele dizia que uma música pop era uma música para assobiar, ninguém fazia uma música pop para perdurar... Foi isso que me motivou a escrever aquela letra. Há dias encontrei-o e contei-lhe esta história. Ele achou um piadão.

Estão preocupados com a repercussão deste novo disco?

HO - Acho que não, agora isso é completamente irrelevante.

JG - Queremos que ele chegue ao maior número de pessoas. Que conheçam as músicas. Ter muitos concertos, obviamente. Queremos divertirmo-nos bastante. Mas daí a estarmos com a síndrome se vai ser ouro ou não...

HO - O grande gozo é termos conseguido fazer músicas novas, acharmos que elas estão óptimas e bem conseguidas. Estão melhores do que as que tínhamos. O que relevo mais nisto tudo é essa capacidade de criar com o mesmo entusiasmo ou mais do que quando fizemos o primeiro álbum. Do nosso ponto de visto já está ganho.

RF - É claro, se vender melhor...

Quando começaram a ensaiar este álbum?

JG - Ensaiamos todos os dias desde há três anos [desde que resolveram voltar]. Somos muito profissionais, o que fizermos tem de ser bem feito. O pior é que nestes 30 anos já mudámos umas 30 vezes de sala de ensaios. Estamos sempre a ser corridos por causa do barulho (risos). Temos um problema, não sabemos ensaiar baixo. Cada ensaio é um concerto.

RF - Temos o registo de todas as músicas que fizemos desde o concerto na Casa da Música.

HO- E há várias que temos para lá muito boas, que dão para outro álbum à vontade.

Como vão conciliar a tournée com o vosso lado profissional? Todos trabalham...

HO - Isso é fácil. Nos anos 80, o nosso drama é que não havia auto-estrada. No primeiro álbum, ela acabava ali nos Carvalhos... (risos). Não havia telemóveis. Uma combinação era uma coisa difícil...

JG - Fazer Porto-Lisboa a uma sexta-feira eram 5 horas, só para chegar a Coimbra.

RT- E para Bragança, com aquelas curvas, ui!

JG - Castelo Branco, era como ir daqui para a Suíça. Era inacreditável.... Temos de confessar que estamos um bocadinho preocupados com o Coliseu...

Preocupados?

HO - Pelo sentido da responsabilidade.

JG - Mas no momento em que não estivermos preocupados seja com que concerto for, mais vale arrumar as botas. Mas Coliseu é sempre Coliseu.

RF - Estamos apreensivos.

HO - Vamos levar o máximo, mas gostaríamos de ter tido mais tempo para preparar um concerto ainda mais espectacular.

A adrenalina que sentem em palco é diferente?

HO - Agora está melhor.

JG - Nos últimos anos já não achávamos tanta graça, agora temos a mais valia de tocar músicas novas. Estávamos fartos de tocar só músicas antigas.

HO - A nossa grande diferença é essa. Fazer músicas novas é o grande motivo para voltar a tocar.

RF - E o grande objectivo é tirar prazer de tocar.

JG - Somos completamente anti-democratas, basta um não querer, já não se faz. Como é exclusivamente por prazer, nada mais nos demove. Não temos que prestar contas a ninguém.

Como vêem a actual música portuguesa?

JG - Nunca esteve tão bem. Todos os dias aparecem coisas na rádio muitíssimo boas. Como aquele tema "Vinho do teu Corpo", dos Neruda, é muito bom.

RF - Antes era muito mais difícil.

RT - As editoras estavam fechadas ao rock e ao pop. Antes do Rui Veloso, nem queriam saber.

HO - Mas em termos de probabilidades, a dificuldade é a mesma, porque embora o acesso esteja mais facilitado, é dificílimo um grupo português vingar internacionalmente.

Todos são do Porto. O que elegem na cidade?

JG - Sou grande fã do Palácio. Quando era pequenino, dizia que queria ser Porteiro do Palácio. É impossível não gostar do Parque da Cidade. De toda aquela marginal desde o Castelo do Queijo à Foz... Adoro a Baixa, sou grande fã. Dou grandes passeios na Baixa, entro nas igrejas e tudo.

HO - Há coisas importantíssimas: uma foi o metro que revolucionou, o Estádio do Dragão é fundamental (risos), a Casa da Música, Serralves, o Parque da Cidade, a intervenção da marginal da Foz a Matosinhos.

JG - Um local mítico era o Capa Negra...

RF - A esplanada da Duvália, o Lótus...

JG - O Lótus, pois era, ali em Júlio Dinis... Agora deve ser uma sapataria (risos).

Como vêem a cidade hoje?

HO - Adoro o Porto, temos uma relação única com a cidade. Se calhar todos nós lamentamos a falta de protagonismo, esta relação que está cada vez mais desfasada entre a capital e a segunda cidade do País. Houve um boom cultural, económico, até político, mas temos perdido terreno e é uma pena.

E como comentam esta altura de crise mundial?

JG - Em relação à crise, o drama são os desempregos. E o grande problema desagua sempre na mesma coisa que é a violência enorme, os assaltos.

RF- Acho que há um grande aproveitamento da palavra crise.

RT - Claro que ela existe, mas há um aproveitamento.

JG - A grande diferença entre o nosso tempo e agora é a insegurança: o meu filho foi assaltado oito vezes antes de ter carro. Quando ia para a escola antes de dobrar a esquina, espreitava para ver se vinha alguém. Quando éramos novos íamos para onde queríamos, a qualquer hora do dia, da noite, não tínhamos problemas. Outra coisa preocupante é a falta de futuro dos jovens...

HO - Sim, as saídas profissionais são o mais preocupante.

Algum dos vossos filhos quer seguir a carreira da música?

RF - A minha filha quer ser organizadora de espectáculos

JG - Mas a indefinição deles é preocupante, mudam de ideias constantemente, há uma insatisfação enorme.

Ainda costumam sair juntos à noite?

JG - Já saímos mais.

HO - Volta e meia saimos. Gosto muito daquela zona dos bares da Rua Galeria de Paris, já fui ver como funciona o Plano B, o Pitch....

RF - O Lusitano...

RT- São projectos que estão a levar muita gente à Baixa.

Ao longo destes anos, costumavam sair os quatro?

JG - Era muito raro. Ás vezes dois, mas os quatro...

RF - Éramos reconhecidos muitas vezes, e nos sítios mais improváveis. Mudei há pouco tempo para Matosinhos, e num café, perguntaram-me: "O senhor toca bateria nos táxi. Gostamos muito de o ouvir tocar, quando é que voltam?" Perguntavam-nos sempre isso. Agora já posso responder (risos).

Fisicamente, estão preparados para duas horas em palco?

RF: Eu já fui fazer um electrocardiograma e está tudo bem (risos).

QUEM SÃO OS TAXI:

JOÃO GRANDE (voz)

55 anos. Bancário.

Filhos: 21 e 19 anos.

Hobbies: Youtube, patins, andar a pé, ler muito.

Música: música portuguesa actual, Coldplay, clássica (Ella Fitzgerald, Cole Porter).

Ùltimo Concerto: George Michael

HENRIQUE OLIVEIRA (guitarra)

52 anos. Produtor.

Filhos: 22 e 18 anos

Hobbies : Jogar ténis, viciado em cinema, leitura

Música: U2 (por causa do The Edge), jazz, tudo o que vai saindo ...

Último Concerto: Herbie Hancock

RODRIGO FREITAS (bateria)

51 anos. Free lancer, fez vários guiões para televisão

Filhos: 14 e 18 anos

Hobbies: viciado em andar a pé, bicicleta e natação, cinema, séries de TV, ler e escrever (muito)...

Música: as músicas que as filhas ouvem como Kaiser Chiefs, Interpol ... e gosta de estar informado sobre o que vai saindo.

Último concerto: Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra

RUI TABORDA (baixo)

50 anos. Produtor.

Hobbies: Cinema (muito), viciado em internet

Músicas: Rádio, Fingertips, Coldplay, e outros.

Último concerto: Rolling Stones

TAXI AO VIVO:

Showcase Loja Optimus

Casa da Música - 22 Mai, Sex 18h

Concerto Coliseu do Porto

5 Jun. €10 a €15