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Soltar o corpo, libertar a mente

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Em comunhão com a natureza, os ensinamentos de yoga, tai chi e kuk sool won ganham um outro sentido. No Porto e em Gaia, há aulas gratuitas que convidam a respirar fundo e a olhar para dentro

Primeiro, são os cabelos brancos da senhora de corpo miúdo, um pouco curvado, que chamam a atenção, entre as cerca de 50 pessoas, de todas as idades, que se concentram, naquela manhã, nos jardins do Palácio do Cristal. Depois, reparamos na serenidade da postura, na vivacidade dos olhos azuis, na suavidade dos movimentos. "Demorei algum tempo até encontrar a bola de energia. Nem toda a gente o consegue", diz Vilma Pinto, 83 anos, praticante de tai chi há dez. Quando, finalmente, sentiu a energia a fluir pelo corpo, conquistou "uma calma interior e outra força para enfrentar as dificuldades do dia a dia." Nas aulas praticadas ao ar livre, todos os fins de semana, as sensações positivas saem ainda mais reforçadas. 

Para o mestre Sérgio Terramoto, da Associação Tai Chi Center, a quem a Porto Lazer encomendou estas aulas, a decorrer nos vários jardins da cidade, "as pessoas precisam de momentos de felicidade". Observando, um a um, os rostos dos seus alunos, não se duvida de que esse é o sentimento dominante. Em cima de um palanque, com um microfone pendurado na orelha para se fazer ouvir na última fila do relvado, Sérgio mantém sempre a voz pausada: "Vamos acalmar." Ao palpitar da natureza, junta-se uma relaxante gravação de música. Os movimentos, semelhantes a uma dança contínua, iludem o facto de estarmos perante uma arte marcial milenar chinesa. "Aqui focamo-nos na parte terapêutica e treinamos muito lentamente", explica Sérgio Terramoto. Parece fácil, mas exige alguma coordenação motora, flexibilidade e força muscular.

Os benefícios para a saúde, física e mental, são imensos. "Aumenta a densidade óssea, fortalece os sistemas cardiovascular e respiratório, harmoniza o sistema nervoso... Se houver um treino regular, funciona como um medicamento", defende o mestre. A prática ao ar livre do tai chi potencia ainda mais os fluxos de energia. "Faz muita diferença, é muito mais gratificante", conta uma risonha Ana Amaral, 49 anos, no final da aula. "Agora, apetecia-me ficar deitada na relva, a dormir." 

Na Lavandeira

Atravessando o rio Douro, encontramos relaxamento idêntico no Parque da Lavandeira, em Gaia, ao som da brisa a correr na folhagem dos salgueiros. Desta vez, para a prática de yoga, numa manhã de um dia da semana. De toalhas ou tapetes no chão, reúnem-se cerca de 20 pessoas, homens e mulheres, maioritariamente de cabelos grisalhos. Um par de borboletas a esvoaçar entre os corpos ilumina Fernanda. "Que coisa linda! Nesse momento, tudo fluiu", diz. Afirma-se como "uma não sexagenária", a frequentar estas aulas, na natureza, há cinco anos, duas vezes por semana. "A relva fica branca no inverno, mas arrisquei a primeira vez e gostei. É como se tivéssemos aqui um microclima, abstraímo-nos do tempo."

A aula é dada por Luísa Bernardo, de 58 anos, em regime de voluntariado, desde que está na reforma. "Há sete anos fui desafiada por uma das responsáveis do parque, que me via a praticar regularmente. Nunca pensei fazê-lo com esta seriedade. Mas as pessoas foram aparecendo." O facto de poderem gozar o parque contribuiu para a adesão, admitem os alunos. "Praticar yoga é não praticar a ida ao centro de saúde", defende Abílio Pedro, 75 anos. A apneia do sono, que o acordava de duas em duas horas, ficou... adormecida. "Hoje durmo seis horas consecutivas." As vantagens são infindáveis. Para Luísa Bernardo, "ensina-nos a criar uma autoconsciência mental e corporal". No início, espantava-se com o desnorte dos alunos. Foi preciso corrigir movimentos e passar muito conhecimento. Uma mistura pouco ortodoxa de artes marciais, que também praticou, danças tradicionais e, claro está, yoga. "Dizia-lhes [na brincadeira]: só tenho dor para vos oferecer." Certo é que foram ficando e, hoje, demonstram uma flexibilidade invejável. Em qualquer idade.

Autoconhecimento

De regresso ao Porto, desta vez ao Parque da Cidade, encontramos rostos bem mais jovens. Trajados a preceito, com um quimono preto, a maioria dos participantes da aula de kuk sool won, uma arte marcial sul-coreana, vem da academia fundada por Vítor Duarte, outra convidada da Porto Lazer. Só três curiosos se juntaram ao grupo. "As pessoas sentem-se inibidas e, apesar de ser uma arte tradicional, não é tão conhecida", diz o mestre. Cândida Camarinha, com uns joviais 50 anos, ainda se recorda dos ensinamentos aprendidos há trinta. Ao fazer a sua corrida matinal, cruzou-se com o grupo de praticantes e não resistiu a este regresso ao passado. "Não é difícil de acompanhar, tem é de se manter a concentração." Na fase corpo a corpo, prefere ficar a assistir. "É um exercício muito completo, trabalha-se tudo", nota. Ficou a vontade de voltar a dar a uma perninha.

O contacto com a natureza sempre foi estimulado em estágios da escola Kuk Sool Won. "Não sendo uma arte marcial com vocação desportiva, mas de formação integral do indivíduo, a introspeção é importante e a envolvente ajuda na meditação", explica Vítor. A maioria dos alunos começa por querer aprender algumas técnicas de autodefesa. Só mais tarde, alcançado esse objetivo, avança para experiências mais importantes, como a do autoconhecimento. A disciplina, o rigor, o respeito e o cumprimento dos rituais são essenciais. "Quando falo em polir o movimento, é para que as pessoas levem essa performance consigo e a apliquem naquilo que as rodeia." Para a médica Maria João Rocha, 32 anos, a prática da modalidade, desde há uns meses, ajudou a combater o stresse da profissão. "Sinto um bem-estar maior, estou mais concentrada e ganhei mais agilidade e flexibilidade." Sendo asmática, a aula no Parque da Cidade suscita-lhe alguns condicionamentos. É melhor deixar passar a polinização. Aí, sim, vou poder desfrutar."

Aulas de tai chi

Jardins do Palácio de Cristal, junto à concha acústica, Porto. jul-set, sáb 11h-12h

Monte Aventino, Porto. jul-set, sáb 16h-17h

Parque da Cidade, junto ao Edifício Transparente, Porto. jul-ago, dom 10h-11h

Outras sugestões (grátis) para ficar em forma

Porto

Aulas de yoga (Método DeRose) Jardins do Palácio, junto à concha acústica, Porto. jul-set, sáb 10h-11h. Monte Aventino, Porto. jul-set, sáb 15h- -16h. Parque da Cidade, junto ao Pavilhão da Água, Porto. jul-set, dom 11h-12h

Matosinhos

Põe-te a mexer...: As marginais de Matosinhos ou de Leça da Palmeira acolhem atividades físicas gratuitas, acompanhadas por técnicos de desporto e saúde. Podem ser caminhadas, aulas de fitness ou exercícios de mobilização geral. Jul, dom 10h, qua 21h30.

Póvoa de Varzim

Verão Desportivo: Aulas de ginástica, na praia da Lagoa, gratuitas. Até 30 set, seg-qua e sexta 11h

Vila do Conde

Atividades desportivas, no parque de jogos. Até 31 ago, seg--qua-sáb 10h30

Vila Nova de Gaia

Aulas de tai chi gratuitas.

Parque da Lavandeira. Todo o ano, ter/qui 9h30