Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

Crónica por Lisboa: A loja da Rita

Sair

Os lugares da cidade, as histórias escondidas e os pequenos prazeres. A crónica quinzenal Por Lisboa, pela jornalista Rosa Ruela

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

D.R.

O senhor seu pai que nos perdoe, logo ele que continua a ir diariamente à Casa Xangai e por lá se mostra sempre discreto e impecável, mas hoje estas linhas são dela. Apetece contar aqui como uma minúscula Rita de 6 anos, que nem chegava ao balcão, um dia surpreendeu o avô ao meter-se numa conversa de crescidos porque sabia da existência de um determinado artigo: “Há, há, naquela gaveta.”

Rita Mega adora a loja que está na família desde 1953, ano em que Caetano Soares da Fonseca a comprou. Os anteriores donos admiravam o general Chiang Kai-shek e vendiam apenas artigos chineses nesta antiga alfaiataria alterada em 1929 pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. O avô de Rita haveria de apostar nos enxovais de recém-nascidos (as deliciosas camisas da Madeira!), uma aposta a que a família acrescentaria roupa de cerimónia para criança e apontamentos de senhora, entre lencinhos de assoar e roupa interior de uma marca suíça de grande qualidade que entretanto passou a ter fabrico em Portugal.

Entrar hoje no número 19 A da Avenida da República, vizinho da Versailles (e por isso abrangido pela zona geral de proteção da pastelaria), é saber que lá dentro os balcões de madeira de carvalho nos remetem para outros tempos. E que – para nossa sorte – vamos ouvir Rita confessar: “Nasci para isto.”