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São uma das maiores obras de Almada e estiveram praticamente inacessíveis – até agora

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As gares marítimas de Alcântara e da Rocha Conde D’Óbidos vão passar a estar abertas ao público no último fim de semana de cada mês, já a partir deste sábado e domingo, dias 27 e 28. É lá que estão os bonitos painéis de Almada Negreiros

A Gare Marítima de Alcântara foi pensada para receber os passageiros de 1ª classe que chegavam a Lisboa. A sala principal situa-se no 1º andar pois era aí que era feito o desembarque de bagagens e alfândega

A Gare Marítima de Alcântara foi pensada para receber os passageiros de 1ª classe que chegavam a Lisboa. A sala principal situa-se no 1º andar pois era aí que era feito o desembarque de bagagens e alfândega

D.R.

A iniciativa é do Porto de Lisboa e tem início já neste sábado e domingo, dias 27 e 28. A Gare Marítima de Alcântara e a Gare Marítima da Rocha Conde D’Óbidos passam a estar abertas ao público no último final de semana de cada mês. Até agora, eram apenas feitas visitas guiadas gratuitas para grupos com um mínimo de dez pessoas, de segunda a sexta-feira, por marcação.

O interior dos dois edifícios pode ser visitado, mas é no primeiro andar – pois era aí que era feito o desembarque de bagagens e alfândega – que se encontram os painéis desenhados e pintados por Almada Negreiros (1893-1970). Nos anos 30 do século XX, o então Ministro das Obras Públicas de Salazar, Duarte Pacheco, decide avançar com a encomenda de duas gares marítimas para a capital. O objetivo era fazer de Lisboa o cais da Europa, uma receção marítima ideal para bens e pessoas, e o destino turístico de eleição. A encomenda foi feita a Porfírio Pardal Monteiro e foi, justamente, o arquiteto que recomendou Almada, com quem já havia trabalhado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, nas Avenidas Novas, e na antiga sede do Diário de Notícias, na Avenida da Liberdade.

Na Gare Marítima de Alcântara (1943), pensada para receber os passageiros de 1ª classe, estão dois trípticos e duas composições isoladas. De um lado, em três painéis, ao jeito de uma banda desenhada, conta-se a história da Nau Catrineta, lengalenga que tinha que se aprender na escola: “Lá vem a Nau Catrineta/ que tem muito que contar!/ Ouvide, agora, senhores/ Uma história de pasmar.” O segundo tríptico, que Almada tratou de legendar “Quem não viu Lisboa não viu coisa boa”, retrata a cidade no seu quotidiano, em especial a faina marítima, as varinas e as mulheres que levavam o carvão para os barcos, em cestas à cabeça.

Um dos painéis na Gare Marítima da Rocha de Conde D'Óbidos

Um dos painéis na Gare Marítima da Rocha de Conde D'Óbidos

Mário Novais / Biblioteca de Arte Fundação Calouste Gulbenkian

A Almada Negreiros seriam também encomendadas as pinturas para a Gare Marítima da Rocha Conde D’Óbidos (1948), no extremo oposto do cais, que acabou por ficar afeta ao trânsito com as colónias e, décadas depois, serviu para o embarque das tropas portuguesas para o Ultramar. Os dois trípticos da autoria do artista apresentam aspetos da vida no cais, desde a evocação dos saltimbancos aos passeios dominicais no estuário do Tejo à construção dos edifícios das gares, ao adeus dos que partem e à ansiedade dos que aguardam no cais.

Almada Negreiros disse mais tarde que as pinturas para a Gare Marítima da Rocha Conde D´Óbidos era o trabalho de que mais se orgulhava, com que mais se identificava. O mesmo não disse quem lhe encomendou o trabalho. Para o artista, uma coisa era a encomenda, outra – não necessariamente a mesma coisa – era a obra.

Mário Novais / Biblioteca de Arte Fundação Gulbenkian

Gare Marítima de Alcântara > Doca de Alcântara > Gare Marítima da Rocha Conde D’Óbidos > R. General Gomes Araújo, Rocha Conde de Óbidos > sáb 10h-13h, 14h-18h, dom 10h-13h > grátis