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O imenso azul da albufeira de Castelo do Bode

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É a primeira estância de wakeboard do mundo, praias fluviais, aldeias ribeirinhas e restaurantes para provar as iguarias da região. Pretextos não faltam, como aqui se comprova, para desbravar a albufeira de Castelo do Bode

A albufeira de Castelo do Bode sempre foi um destino de eleição para os adeptos de desportos náuticos

A albufeira de Castelo do Bode sempre foi um destino de eleição para os adeptos de desportos náuticos

Luis Barra

Estamos a quilómetros de distância da costa, mas o ambiente em nada difere de qualquer praia do Litoral. Na esplanada do Maven Café, veem-se jovens de corpos bronzeados, muitos deles com as pranchas ao lado das mesas, a bebericarem cocktails e sumos de fruta, enquanto saboreiam as já célebres saladas ou os não menos conhecidos hambúrgueres, ao som da música de DJ convidados. Este típico bar de praia, com interior em madeira, abriu as portas por altura do Campeonato Mundial de Wakeboard, que se realizou na albufeira de Castelo do Bode, em 2015, e que, desde então, deu nova vida à praia fluvial da Castanheira (ou Lago Azul), ali mesmo em frente. Foi a primeira vez que tal prova ocorreu fora dos Estados Unidos da América, e muitas mais se lhe seguiram – nacionais e internacionais. O cenário repete-se desde o início do verão, com as filas a prolongarem-se junto aos cable parks de wakeboard, instalados na albufeira, onde, de segunda a sexta, entre as 10 horas e as 14 horas a prática da modalidade é gratuita. “Esta campanha tem como objetivo não só atrair mais praticantes mas, especialmente, mostrar este desporto como sendo algo acessível a todos”, explica à VISÃO Se7e João Reis, o gestor do projeto Wakeboard Portugal, que, há três anos, fez de Castelo do Bode “a primeira estância de wakeboard do mundo”. “Foi importante trazer o Mundial; agora a prioridade é promover a modalidade, que a cada ano atrai um número cada vez maior de praticantes, tanto portugueses como estrangeiros”, sublinha.

Antes de tudo, convém explicar o que é isto de wakeboard: à falta de melhor exemplo, pode ser apresentado como uma derivação do esqui aquático com muitas semelhanças ao snowboard, embora, neste caso, executado na água, sendo o praticante puxado por um barco ou por um sistema de cabos. Ao todo, são cinco os cable parks, onde esta modalidade pode ser praticada de forma fácil e segura, como pudemos testemunhar, com pessoas de todas as idades a aventurarem-se com uma prancha nos pés, nas cálidas águas da albufeira. O processo é simples: os praticantes estão presos a um cabo, que liga as duas margens e que os puxa, já dentro de água, enquanto um monitor lhes vai dando instruções, via rádio, sobre como posicionar o corpo, de modo a equilibrarem-se na prancha. Consoante a experiência (e a coragem) de cada um, podem também aventurar-se nos diversos obstáculos existentes ao longo do percurso, como rampas, degraus ou corrimãos. Os cable parks estão localizados numa área com cerca de 30 quilómetros, nas praias fluviais de Aldeia do Mato (Abrantes), Montes (Tomar), Lago Azul (Ferreira do Zêzere), Fernandaires (Vila de Rei) e Trízio (Sertã), permitindo assim a prática de wakeboard, sem ser necessário recorrer a um barco, ou seja, com muito menos custos do que o habitual, pois o preço de utilização é de apenas 15 euros por uma sessão de 15 minutos (mais cinco euros pelo aluguer do equipamento) – valor, por esta altura, apenas cobrado na parte da tarde.

Luis Barra

“Qualquer pessoa pode experimentar. É um desporto muito fácil de praticar, quando comparado, por exemplo, com o snowboard. Por norma, consegue-se logo à primeira tentativa”, esclarece João Reis, ele próprio monitor no cable park do Lago Azul, em Ferreira do Zêzere, o local onde tudo começou, já lá vão mais de dez anos. Natural de Lisboa, há muito que João Reis, 39 anos, para aqui vinha, para praticar a modalidade que agora ensina. A albufeira de Castelo do Bode sempre foi um destino de eleição para os adeptos de desportos náuticos, mas, nos últimos anos, tem havido uma verdadeira “explosão” de praticantes de wakeboard, e João é um dos responsáveis por isso. Começou em 2005, ao organizar “uns campos de férias com miúdos”. Cinco anos depois, largou o design gráfico e abriu uma escola de wakeboard, no Lago Azul. Mais tarde, já com o apoio dos municípios envolvidos, do Turismo Centro de Portugal, da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Associação Portuguesa de Wakeboard, iniciou o projeto Wakeboard Portugal, com o objetivo de colocar a albufeira no mapa mundial – e Portugal como destino de eleição, na Europa, para a prática deste desporto, o que está finalmente a ser conseguido. “O clima e as excelentes condições do espelho de água tornam este local perfeito para a prática de wakeboard, mas ainda há muito a fazer”, alerta. Por exemplo? “Criar uma ligação fluvial entre as praias”, para permitir aos praticantes circularem entre os diferentes parques ao longo do dia, “como acontece nas estâncias de esqui”, refere João que, entretanto, se levanta, regressando, passado pouco tempo, com duas pranchas debaixo do braço. “Vamos experimentar?”, desafia. “Bora lá!” E não é que nos saímos bem logo à primeira?

Por terras de Templários
À boleia do wakeboard, revela-se também uma região com paisagens e um património únicos. Um bom ponto de partida para sair à descoberta das margens deste grande lago é a cidade de Tomar, que, ainda em junho, recebeu a etapa de uma prova pontuável para o Mundial de Wakeboard, realizada no rio Nabão, mesmo junto ao bonito Parque do Mouchão e da imponente Ponte Velha. Se o castelo templário e o Convento de Cristo dispensam convite, há outros “monumentos” na cidade, eventualmente menos conhecidos, que merecem ser visitados. É o caso da Casa Matreno e da Casa das Ratas, duas tabernas irmãs, ali bem perto do Nabão, que fazem parte da memória coletiva da cidade – especialmente a segunda. “Casa das Ratas, o local onde até vão estrangeiros”, lê-se à entrada, num velho recorte de jornal, amarelecido pelo tempo. Lá dentro, há pipas, velhos depósitos de vinho e estantes com garrafas a perder de vista, pontuadas por odes ao néctar de Baco, como aquela que diz assim: “Oh meu rico e belo vinho, como tu não há igual, para vir à Casa das Ratas já percorri Portugal.” E sim, há lá estrangeiros, muitos, e pessoas de todo o País, que ocupam a totalidade das poucas mesas desta velha adega em forma de corredor. “A verdadeira taberna era do outro lado da rua, isto aqui era uma espécie de Casal Ventoso do vinho”, diz, com humor, o atual proprietário, Pedro Oliveira, um antigo topógrafo, de 41 anos, que adquiriu a casa em 2009, “após uma noite de copos”, na Casa das Ratas. “Funcionou como taberna pura e dura até aos anos 90. Era o local onde se reunia aquela gente que gostava de lanches compridos e muito bem regados.” E tanto vinham “o coronel e o médico” como os trabalhadores das muitas fábricas da cidade, hoje já quase todas encerradas. Quanto ao nome, desengane-se quem espera qualquer tipo de brejeirice: “O chão era em terra e, como temos o rio mesmo aqui ao lado, era normal ver ratazanas a passar junto aos pés dos clientes.” Hoje, isso já não acontece, mas a casa consegue manter todo o ambiente de antigamente, em especial à mesa, com pratos como as iscas, as migas de bacalhau, o cozido, o cabrito ou as burras no forno, sempre antecedidos por pão, queijo e azeitonas. E para rematar, “um abafado caseiro, de oferta”.

É também aos Templários que a pequena e bonita vila de Dornes, já no concelho de Ferreira do Zêzere, deve a sua fama, em especial devido à rara e misteriosa torre pentagonal, que terá sido construída no século XII a mando de Gualdim Pais, o grão-mestre desta ordem religiosa, como defesa da Linha do Tejo. Na altura, ainda não existia a barragem que, séculos mais tarde, alagaria esta zona, tornando a pequena vila uma localidade ribeirinha, encavalitada numa estreita península, rodeada pelas águas do Zêzere, pelo qual ainda navegam os tradicionais barcos de três tábuas (ou abrangel), construídos a partir de um único tronco de pinheiro. Percorrendo a vila, vale a pena entrar na Igreja de Nossa Senhora do Pranto, com origem no século XIII e revestida a azulejo, onde termina uma das mais antigas peregrinações em Portugal, os Círios de Dornes, que se realiza entre a segunda-feira de Pascoela e o terceiro domingo de setembro.

Luis Barra

Natureza a perder de vista
Poucos quilómetros após se cruzar a ponte sobre o Zêzere, que une os concelhos de Ferreira do Zêzere e de Vila de Rei, uma placa indica, à esquerda, uma “estrada panorâmica”, à qual, numa região como esta, é impossível resistir. O caminho, seja qual for o destino, é decerto mais longo e demorado por aqui, mas que importância tem isso quando se pode apreciar, desde o alto, todo este espelho de água? Um dos melhores locais para o fazer é o “Miradouro da Pedra”, como é conhecido por aqui aquele penedo, sem qualquer outra referência que não “um pequeno descampado junto a uma curva, quando a estrada começa a descer”. Apenas há que parar o carro e seguir pelo trilho até ao topo da rocha, para daí se ter uma vista panorâmica a 360o deste paraíso. Lá em baixo, muito ao longe, vê-se a praia de Fernandaires, onde fica um dos cable parks mais longos.

É já fim da tarde quando chegamos à Sertã, com a luz do sol-posto a dar uma tonalidade mágica à bonita Alameda da Carvalha, um parque contíguo à ribeira que leva o mesmo nome da vila, com árvores centenárias e uma ponte medieval. A completar o cenário, está um imponente convento, construído no século XVII e que, em 2013, depois de anos ao abandono, ganhou uma nova vida como hotel de charme. O trabalho de restauro não só manteve toda a traça original como “recuperou muito do que havia sido estragado, pois várias paredes estavam tapadas com cimento”, realça a diretora do Convento da Sertã Hotel, Elsa Marçal, 45 anos, que apostou também no turismo de Natureza. À chegada, por exemplo, os hóspedes recebem uma brochura com quatro roteiros pela região, sugeridos pela equipa do hotel, que organiza, ainda, diversas atividades, como passeios pedestres, de canoa, de BTT ou de observação de aves. “O nosso papel também é esse, apresentar a quem nos visita o melhor que temos para oferecer”, defende Elsa. Talvez por isso não seja de estranhar que o hotel tenha uma ligação direta ao vizinho restaurante Ponte Velha, uma das grandes referências gastronómicas do concelho, onde se presta homenagem aos sabores destas terras serranas, como são o bucho recheado e os maranhos à moda da Sertã, o cabrito estonado à moda de Oleiros ou o achigã com molho verde. Antes, porém, é obrigatório provar o prato de assinatura da casa, a sopa de peixe da Dona Helena, que, por aqui, serve de entrada à refeição.

É também no concelho da Sertã que fica a praia fluvial do Trízio. Rodeada por um frondoso pinhal, conta com espreguiçadeiras à sombra das árvores, restaurante com esplanada junto à água, aluguer de canoas e um dos cable parks do projeto Wakeboard Portugal, onde, invariavelmente, pela manhã, a fila se estende com pessoas à espera de vez para experimentarem o tal desporto que colocou no mapa a albufeira de Castelo de Board – perdão, do Bode.

Wakeboard Portugal > wakeboardportugal.com > T. 91 584 4443

ONDE COMER:

Casa das Ratas e Casa Matreno, Tomar

Fazem parte da memória coletiva da cidade, e aqui revive-se o ambiente das antigas tabernas, em especial à mesa, com pratos como as iscas, as migas de bacalhau, o cozido, o cabrito ou as burras no forno. R. Dr. Joaquim Jacinto, Tomar > T. 249 315 237 > ter-sáb 12h-15h, 19h-22h, dom 12h-15h

Grelha do Zêzere, Ferreira do Zêzere

Aberto há mais de duas décadas por Maria de Lurdes 
e por José Rosa, é uma referência em Ferreira do Zêzere, por conta de pratos como a espetada no almofariz, os bifinhos no chapéu ou o naco na telha. R. Maria Vasques, 37, Ferreira do Zêzere > T. 249 362 300 
> seg-ter, sex-dom 12h-22h, qua 12h-15h

Café Maven, Ferreira do Zêzere

Na praia fluvial da Castanheira, serve saladas, tostas 
e hambúrgueres, acompanhados por cocktails e sumos de fruta. R. do Lago Azul, 541, Castanheira, Ferreira do Zêzere > T. 91 090 0626 > seg-dom 10h-19h

Ponte Velha, Sertã

O restaurante presta homenagem aos sabores destas terras serranas, como são o bucho recheado e os maranhos, o cabrito estonado à moda de Oleiros, o achigã com molho verde. Para entrada, sugere-se a sopa de peixe da Dona Helena. Alameda da Carvalha, Sertã > T. 274 600 160 > ter-dom 12h-15h, 19h-23h

Clube Náutico do Zêzere, Sertã

Além de sanduíches e de saladas, serve também petiscos e pratos mais substanciais da gastronomia da região. Praia Fluvial do Trízio, Palhais, Sertã
> T. 91 638 9686 > ter-dom 10h30-21h30

ONDE DORMIR:

Casa do Adro Hotel, Ferreira do Zêzere

Com 42 quartos, o hotel de quatro estrelas resulta da recuperação de um palacete do século XVIII. Tem piscina exterior e uma esplanada panorâmica no último piso. R. Dr. António Baião, 13, Ferreira do Zêzere > T. 249 361 397 > a partir de €70

Hotel Convento da Sertã, Sertã

Hotel de charme, com 25 quartos, piscina exterior e uma vasta oferta de massagens e de tratamentos. R. do Convento, 12, Sertã > T. 274 608 493 > a partir de €100