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A torre de Rapunzel

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Os lugares da cidade, as histórias escondidas e os pequenos prazeres. A crónica quinzenal Por Lisboa, pela jornalista Rosa Ruela

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Na manhã em que estacionei o carro no Pátio do Israel, em Marvila, três homens atarefavam-se em redor da torre, empoleirados nuns andaimes. “Isto é para sair!”, disse um deles, apontando para os ferros com uma pá de pedreiro. Já há uns anos que a vizinhança se queixava dos carochos que ali iam fanar metal; era preciso entaipar todas as entradas para a estrutura não se degradar ainda mais.

Conhecida como o mirante da Quinta do Marquês de Marialva, embora esteja no extremo norte da chamada Quinta do Brito (propriedade onde funcionou em tempos a Fábrica Nacional de Sabões), a pequena torre oferecia vistas em 360 graus a quem subisse a sua escada em caracol. Tinha frescos nas paredes e vidros coloridos nas bandeiras das portas. Mesmo agora, entaipada 
e coberta de graffiti, tem o seu quê de romântico. Dá prazer vê-la estoica, junto à linha de caminho de ferro, entre o casario descaracterizado.

Reza a lenda que foi do cimo desta torre que o rei 
D. Pedro V assistiu à passagem do comboio a vapor que fez a viagem inaugural, entre a estação provisória do Cais dos Soldados (atual Santa Apolónia) e Vala do Carregado, mas as notícias desse dia 28 de outubro de 1856 dão conta de que Sua Alteza Real seguia a bordo. Uma pena porque já estávamos a imaginá-lo feito Rapunzel.