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A casa do raposinho

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Os lugares da cidade, as histórias escondidas e os pequenos prazeres. A crónica quinzenal Por Lisboa, pela jornalista Rosa Ruela

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Numa fachada branca e quase lisa, aparentemente anódina, aquele seria o único elemento que poderia interessar a uma criança.

Numa fachada branca e quase lisa, aparentemente anódina, aquele seria o único elemento que poderia interessar a uma criança.

Não me lembro do dia em que vi, pela primeira vez, esta cabeça de raposinho, mas sei que era uma miúda e que só olhei para cima porque a minha mãe apontou para ela. Numa fachada branca e quase lisa, aparentemente anódina, aquele seria o único elemento que poderia interessar a uma criança. E a verdade é que nunca mais deixei de olhar para cima, ao passar pelo número 22 da Calçada Bento Rocha Cabral, junto à Mãe d’Água e ao jardim das Amoreiras.

A sua história é que só veio parar-me ao colo muito mais tarde, pela coincidência de os atuais donos da “casa do raposo” serem meus amigos. Hoje, também já a conheço por dentro, uma sorte.
Projetada e construída pelo arquiteto António Hipólito Raposo, em 1972, é uma casa muito bem-feita, virada para um belo pátio e cheia de nichos (o dono era colecionador). No interior, tudo se manteve, à exceção da cozinha e das casas de banho (é difícil coabitar com azulejos castanhos e cor de laranja nos anos 2000), e da alcatifa que foi substituída por soalho de madeira; no exterior, por uma questão de segurança, a porta ganhou uma grade.

E, agora, vem o punch final: após a morte de Hipólito Raposo, um brasileiro fez aqui uma “casa de meninas”. Durante uns tempos, os meus amigos receberam cartas para a empresa La Vie en Rose, Atividades Físicas, Lda. Das delícias.