Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

Os novos 'corredores verdes' de Lisboa

Sair

Dos Olivais ao Alto da Ajuda, com paragem em Alvalade, a cidade ganhou três novas zonas onde cresce tomate coração de boi, há máquinas para trabalhar os bíceps e até um miradouro para ver passar os aviões. Passeio pelo Parque da Quinta Conde dos Arcos, Jardim Aquilino Ribeiro Machado e Parque Urbano do Rio Seco

Na Quinta Conde dos Arcos, nos Olivais, onde continuam a funcionar o Viveiro Municipal, a Escola de Calceteiros e a Escola de Jardinagem, foram requalificados os recantos ajardinados e os caminhos pedestres

Na Quinta Conde dos Arcos, nos Olivais, onde continuam a funcionar o Viveiro Municipal, a Escola de Calceteiros e a Escola de Jardinagem, foram requalificados os recantos ajardinados e os caminhos pedestres

António Bernardo

Ainda há campo na cidade, apetece dizer quando cruzamos o portão principal da Quinta Conde dos Arcos, nos Olivais. E não é só pela bonita alameda ladeada de árvores que logo nos faz esquecer os prédios em redor destes nove hectares, onde funcionam, há 30 anos, as escolas de Calceteiros e de Jardinagem da Câmara de Lisboa, e ainda o Viveiro Municipal, de onde saem as árvores e os arbustos da cidade. São também os recantos ajardinados com bancos, o grande dragoeiro com 200 anos de “idade provável”, assim se lê na tabuleta, o relvado que pede para levar a manta ou o pequeno lago desta quinta que fazia, a par de outras propriedades de famílias nobres, o povoado rural dos Olivais.
Com a abertura ao público no início de junho, há agora um parque infantil com escorregas e outros divertimentos, e ainda um parque hortícola (por abrir está a cafetaria com esplanada). Dos 46 talhões, dois pertencem à junta de freguesia e outros dois à Escola de Jardinagem que ali ensina a armar um canteiro, a proteger as culturas em agricultura biológica ou a fazer compostagem (os cursos de hortas urbanas duram três dias e são gratuitos). Quem não precisou de formação para tirar proveito dos seus 100 metros quadrados foi Jeremias Silva, reformado. Ficou suplente no concurso para a atribuição das áreas de cultivo (entre 80 e 100 metros quadrados) e quando houve uma desistência, não desperdiçou a oportunidade: feijão-verde, cebolo, tomate coração de boi, pimentos de toda a qualidade, vai-nos mostrando. Também já preparou a terra para quando voltar de Lamego, no final de agosto, poder plantar a couve penca (de Chaves), o nabo, as nabiças e o lombardo que já crescem no viveiro. “Se for de outra terra, a planta estranha”. Conta que de manhã as hortas são um festim para melros, gaios e esses papagaios verdes (os periquitos-de-colar) que invadiram Lisboa. “Quando aqui chego mandam logo vir comigo. Vá por aqui fora e veja o que fizeram às maçarocas de milho. Comem tudo.”

O Jardim 
e Parque Hortícola Aquilino Ribeiro Machado faz a ligação entre a Avenida do Brasil 
e a Alta de Lisboa

O Jardim 
e Parque Hortícola Aquilino Ribeiro Machado faz a ligação entre a Avenida do Brasil 
e a Alta de Lisboa

António Bernardo

Talhões, fitness e aviões
Emília Martins não se queixa da passarada, mas vai dizendo que tem muita pedra, o quinhão de terra que lhe calhou no Jardim e Parque Hortícola Aquilino Ribeiro Machado, com entrada pela Avenida do Brasil, por um portão entre o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e a Rua das Murtas. “Dá um bocadinho mais trabalho, mas é bom para nos mantermos entretidas”, diz Emília, olhando para a sua mãe, que veio viver consigo para estar mais acompanhada.

Batizado com o nome do primeiro presidente da Câmara Municipal de Lisboa do pós-25 de Abril, o novo jardim e parque municipal nasceu numa pequena parcela dos terrenos do LNEC, parceiro deste projeto, ao qual se uniu a Junta de Freguesia de Alvalade, que também ali faz a sementeira de flores e plantas para colmatar o que vai faltando nos espaços verdes (estão também previstas atividades de educação ambiental). Além dos talhões, neste corredor de 25 mil metros quadrados que veio ligar duas zonas da cidade – Alvalade e a Alta de Lisboa –, cabe ainda uma área com seis equipamentos fitness, mesas e bancos para ficar à conversa, e ainda um miradouro de observação de aviões, elevado ao nível da Segunda Circular que passa logo ali. A julgar pelo aspeto, não nos pareceu pronto, mas não demos a viagem por perdida, já que mesmo lá de baixo, junto às hortas, se tem uma perspetiva privilegiada dos aparelhos que, numa cadência de dois ou três minutos de intervalo, se fazem à pista do Aeroporto Humberto Delgado.

Vistos do Alto da Ajuda, junto ao polo universitário, os aviões não estão à mão de semear, mas ficam mesmo bem na fotografia-postal: o casario que desce até ao rio, a Ponte 25 de Abril, o Cristo Rei e, lá mais ao fundo, Cacilhas, o Barreiro e tudo o mais que os olhos alcançarem. Quando, no final de 2014, visitámos o Bairro 2 de Maio, para acompanhar o projeto de requalificação 2 de Maio Todos os Dias – levado a cabo por três estudantes da vizinha Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa em colaboração com os moradores –, o vale que os dividia era um matagal que servia de depósito aos candeeiros velhos da cidade. E onde subsistiam pombais, cavalos e pequenas hortas. Com o projeto do Parque Urbano do Rio Seco concluído, há agora zonas de prado (à espera que chova, é certo), árvores e arbustos que hão de crescer, caminhos, zona de merendas e bancos de jardim. E se ao parque infantil ainda não chegaram baloiços e escorregas, os 18 talhões entregues o ano passado foram transformados em hortas viçosas que custam 78 euros ao ano, garantindo a câmara municipal a água necessária e o abrigo para as alfaias. Os tais cavalos têm um picadeiro e o pombal é casa de verdadeiros atletas nas provas internacionais de Velocidade, Meio-Fundo e Fundo. Os pombos- -correio são o orgulho do Clube Columbófilo Lusitano e Pedro Ferreira, um dos associados, explicou-nos tudo. Estamos no defeso, época em que se criam os borrachinhos e da muda da pena, mas chegando a dezembro/janeiro estarão prontos a percorrer até mil quilómetros de distância.

A criação deste parque urbano faz parte da política ambiental do município de construção de nove corredores verdes que liguem importantes zonas da cidade. No futuro, a Câmara quer criar um elo de ligação entre o Corredor Verde do Rio Seco e o Jardim Botânico da Ajuda e outro até à Tapada da Ajuda. Se assim for, lá estaremos para fazer o caminho.

O caminho entre o polo universitário do Alto da Ajuda e o Palácio Nacional faz-se agora pelo chamado Parque Urbano do Rio Seco

O caminho entre o polo universitário do Alto da Ajuda e o Palácio Nacional faz-se agora pelo chamado Parque Urbano do Rio Seco

António Bernardo

Parque Urbano da Quinta Conde dos Arcos > Av. Dr. Francisco Luís Gomes, Olivais > seg-dom 6h30-22h (mar-out), seg-dom 6h30-20h (out-mar) > Jardim e Parque Hortícola Aquilino Ribeiro Machado > Av. do Brasil, Alvalade > seg-dom 7h-21h (mar-out), seg-dom 7h-21h (out-mar) > Parque Urbano do Rio Seco > Alto da Ajuda (entre Av. da Universidade Técnica e Rua do Cruzeiro)