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The Presidential Train: Douro, história, vinho e flores... para comer

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Já começaram as viagens gastronómicas ao Douro, a bordo do histórico comboio presidencial. Até 14 de maio, o The Presidential Train serve cozinha com três chefes Estrelas Michelin, vinhos do Douro e, sobretudo, muita paisagem. E promete voltar na época das vindimas

A cor azul do antigo Comboio Presidencial não passa indiferente nos carris, em direção ao Vesúvio, no Alto Douro
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A cor azul do antigo Comboio Presidencial não passa indiferente nos carris, em direção ao Vesúvio, no Alto Douro

Lucília Monteiro

O rio Douro, a paisagem de socalcos e as vinhas são algumas das mais valias da viagem neste comboio histórico de luxo
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O rio Douro, a paisagem de socalcos e as vinhas são algumas das mais valias da viagem neste comboio histórico de luxo

Lucília Monteiro

As mesas das carruagens-restaurante aguardam uma série de almoços gourmet, preparados por três chefes com Estrelas Michelin
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As mesas das carruagens-restaurante aguardam uma série de almoços gourmet, preparados por três chefes com Estrelas Michelin

Lucília Monteiro

José Santos e Cláudia Jorge, os dois primeiros passageiros desta série de viagens do The Presidential Train
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José Santos e Cláudia Jorge, os dois primeiros passageiros desta série de viagens do The Presidential Train

Lucília Monteiro

Nas antigas estantes nos corredores da carruagem há livros e catálogos de Serralves para ler durante a viagem
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Nas antigas estantes nos corredores da carruagem há livros e catálogos de Serralves para ler durante a viagem

Lucília Monteiro

O serviço de almoço exige uma grande perícia para evitar contratempos devido aos solavancos do comboio
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O serviço de almoço exige uma grande perícia para evitar contratempos devido aos solavancos do comboio

Lucília Monteiro

Os vinhos da Quinta do Valado, Niepoort, Quinta Vale D. Maria e Graham's acompanham toda a viagem de comboio
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Os vinhos da Quinta do Valado, Niepoort, Quinta Vale D. Maria e Graham's acompanham toda a viagem de comboio

Lucília Monteiro

As encostas do Douro Património Mundial e as águas do rio Douro acompanham os passageiros durante quase toda a viagem
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As encostas do Douro Património Mundial e as águas do rio Douro acompanham os passageiros durante quase toda a viagem

Lucília Monteiro

Um dos pratos servidos pela equipa de Esben Holmboe Bang: espargos com flor de Sabugueiro
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Um dos pratos servidos pela equipa de Esben Holmboe Bang: espargos com flor de Sabugueiro

Lucília Monteiro

Pombo com cogumelos selvagens, da autoria da equipa do Maaemo
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Pombo com cogumelos selvagens, da autoria da equipa do Maaemo

Lucília Monteiro

A única paragem do comboio presidencial é na Quinta do Vesúvio, em Numão, Vila Nova de Foz Coa
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A única paragem do comboio presidencial é na Quinta do Vesúvio, em Numão, Vila Nova de Foz Coa

Lucília Monteiro

Na viagem de regresso servem-se fumados da duriense Qualifer, cabeça de xara do Alentejo e pão da Gleba
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Na viagem de regresso servem-se fumados da duriense Qualifer, cabeça de xara do Alentejo e pão da Gleba

Lucília Monteiro

O antigo Comboio Presidencial, que transportou chefes de Estado, entre 1910 e 1970, é, por alguns dias, um veículo de turismo de luxo
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O antigo Comboio Presidencial, que transportou chefes de Estado, entre 1910 e 1970, é, por alguns dias, um veículo de turismo de luxo

Lucília Monteiro

Passam poucos minutos das dez da manhã quando entramos na Estação de S. Bento, no Porto. Todos os olhares seguem em direção ao comboio azul que, entre 1910 e 1970, transportou chefes de Estado, a Rainha Isabel II de Inglaterra e, entre outros, o papa Paulo VI. Os passageiros que aguardam por outras viagens, tiram fotos às carruagens – principalmente às três dedicadas ao serviço de restaurante, onde as mesas estão dispostas (copos incluídos) – e deslumbram-se com o comboio que é património histórico e só sai do Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento, para esta série de viagens de luxo ao Douro, com cozinha a bordo de chefes com Estrela Michelin, que acontecem até ao dia 14. E atenção que ainda existem lugares disponíveis para os próximos dias (€500/viagem). Em setembro e outubro, aproveitando a época das vindimas, o Comboio Presidencial deverá voltar aos carris para mais 20 viagens (com outros chefes de Estrela Michelin a bordo).

Mas é ainda na plataforma que recebemos a má notícia: o chefe dinamarquês Esben Holmboe Bang, do restaurante Maaemo, na Noruega, três Estrelas Michelin, partira a perna e não estará, como previsto, a cozinhar até domingo, 7. A bordo está, contudo, uma equipa de três pessoas vindas da cozinha do Maaemo, em Oslo, nomeadamente o sub-chefe Halaigh Whelan-McManus, 28 anos. Na próxima semana, seguir-se-á a cozinha de dois chefes com Estrela Michelin portugueses: Pedro Lemos (10 e 11 mai) e João Rodrigues, do restaurante Feitoria (12 e 15 mai).

Esta primeira viagem é praticamente destinada a jornalistas, membros do Governo, autarcas, responsáveis pelo turismo. “Só há dois passageiros-clientes a bordo”, avisa Gonçalo Castel-Branco, o mentor desta experiência de turismo ferroviário de luxo em Portugal. E deixa um aviso importante: “Não se encostem às portas, elas abrem para fora.” Feito o check-in, entremos. Tal como noutros tempos, os jornalistas instalam-se na carruagem oposta à dos chefes de Estado, mas depressa as distâncias se esbatem. Afinal, a liberdade (felizmente) é outra. Já com o comboio em andamento, seguimos para as carruagens-restaurante. Da janela, ainda não se avista o Douro, mas pouco há de faltar.

A música ambiente foi selecionada pela Casa da Música – à tarde, ouviremos um pianista a tocar ao vivo na carruagem-bar e guitarra portuguesa –, nos corredores há livros de arte cedidos por Serralves, o ar tem aromas da Castelbel. É a “portugalidade” apregoada por Gonçalo Castel-Branco, que continuará nos rebuçados da Régua oferecidos quando o comboio parar na estação ou nos charutos da Casa Havaneza que aguardam os apreciadores na varanda sobre o Douro, na Quinta do Vesúvio.

Cavala com maçã e alho selvagem com flores comestíveis

Cavala com maçã e alho selvagem com flores comestíveis

Lucília Monteiro

O almoço com (muitas) flores

À mesa, aguarda-se, com expectativa, o menu escandinavo idealizado desde a Noruega. O chefe Esben Bang nunca veio a Portugal (e ainda não foi desta), tal como o jovem sub-chefe Halaigh Whelan-McManus que o substituiu. O que se sabe é que a cozinha do Maaemo aposta nos produtos biológicos, da natureza, da terra. Halaigh dir-nos-á mais tarde, no pico do calor no interior da carruagem-cozinha, que privilegiam “o terroir norueguês”, os produtos associados à natureza e que “estão na memória de criança”. E dá um exemplo: “Na Noruega, os morangos são raros, só os temos durante duas semanas. Temos que os aproveitar bem”, conta o chefe, nada habituado aos quase 30 graus do primeiro dia de viagem, numa cozinha em que tem de manter o equilíbrio, devido aos solavancos da carruagem. É a primeira vez que cozinha num comboio, mas está “a adorar o desafio” e a visita a Portugal. No Porto, contam-nos, já provou francesinha e as sandes de pernil da Casa Guedes.

O sub-chefe do restaurante Maaemo, em Oslo, na Noruega, Halaigh Whelan-McManus, que substituiu Esben Holmboe Bang

O sub-chefe do restaurante Maaemo, em Oslo, na Noruega, Halaigh Whelan-McManus, que substituiu Esben Holmboe Bang

Lucília Monteiro

O almoço começa com um “amuse bouche” improvável: pickles de cebola com ruibarbo e akvavit (um destilado de origem escandinava), já com o copo cheio de Rosé Vallado Touriga Nacional 2016. O ruibarbo será, aliás, só umas das plantas deste almoço. Seguem-se espargos com Flor do Sabugueiro, onde entram ervilhas e cebolinho com flores comestíveis, cavala com maçã e alho selvagem e (o prato menos apreciado pelos convivas) pombo com cogumelos selvagens. Tudo harmonizado com Quinta do Vallado Reserva 2015 e Vertente 2012 da Niepoort, respetivamente. Na cozinha, afinam-se os preparativos para a sobremesa: coulis de morangos, creme de pasteleiro e pétalas de rosa trituradas com sumo de limão. O chefe executivo, Victor Areias, conta-nos que o carvão para defumar o leite-creme da sobremesa foi “o pedido mais estranho” que recebeu da equipa norueguesa.

Lá fora, o Douro já espreita há muito e, na falta de ar condicionado deste comboio antigo, até sabe bem o ar (quente) que entra pelas janelas. Atravessadas as estações de Tormes, Régua e Pinhão, de passarmos pelo outrora intransponível Cachão da Valeira, vamos em direção ao Vesúvio, onde o comboio há de parar durante uma hora, para uma visita à quinta que Dona Antónia decidiu chamar Vesúvio depois de avistar o Monte Vesúvio durante a lua-de-mel em Nápoles, Itália.

São quase 17 horas e a canícula continua. E que bem se está à sombra do jardim da quinta, pertencente ao grupo Sygmington… Os dois passageiros/clientes desta viagem, José Santos e Cláudia Jorge, a trabalharem em Luanda, Angola, apreciam a paisagem e dizem-nos estar a gostar da viagem. Depois de não terem conseguido reservar no ano passado, não perderam a hipótese de a incluir durante esta curta estadia em Portugal. Conhecem o Douro de barco, de carro, mas ainda não tinham vindo de comboio. Só lamentam “a falta de pão e azeite à mesa do almoço”.

Seguimos viagem rumo ao Porto para, de novo, nos encontrarmos com o Douro à janela. No regresso haverá fumados da duriense Qualifer, cabeça de xara do Alentejo com pão da Gleba e mais vinho: o moscatel Dócil da Niepoort e o Grahams Tawny 30 anos. O que faltou em comida, aliás – manifestamente pouca para nove horas de viagem – ganhou na seleção de vinhos. E no cuidado extremo de todos os funcionários que, com muita perícia, conseguiram servir os convivas ultrapassando os solavancos do comboio. E, até à chegada à Estação de S. Bento, perto das dez da noite, garantimos, nenhum copo ou prato se partiu.

The Presidential Train > Estação de S. Bento, Porto (partida 11h; chegada prevista 20h30) > T. 91 572 5300 > 3-7 mai: equipa do chefe Esben Holmboe Bang > 10-11 mai: chefe Pedro Lemos > 12-14 mai: chefe João Rodrigues > €500