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Isolada mas não desolada

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Crónica Por Lisboa

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Esta torre pode parecer triste, solitária e final, numa manhã chuvosa de primavera como aquela em que foi tirada a fotografia aqui em baixo. Se o céu estiver cinzento, a pedra de lioz sobressai pouco e nem as cores dos carros estacionados no largo que está há décadas a fazer de parque de estacionamento lhe emprestam calor.

Um cenário de céu azul-
-turquesa fica-lhe melhor, sim, já vimos noutras ocasiões. Mas é quando tudo se conjuga para a desfear que a Torre do Galo (como ficou conhecida a torre sineira da antiga Capela Real da Ajuda, por causa do bicho do cata-vento) mais brilha no seu barroco tardio.

Construída no final do século XVIII, 50 anos depois sobreviveria à demolição da capela que era de madeira porque a família real ficara escaldada com o terramoto. Os seus sinos, ouvidos pela primeira vez em abril de 1793, por altura do nascimento da infanta Maria Teresa, são oito e chegaram a cair num temporal.

Tanta desgraça e o campanário ali continua, como uma sentinela (comparou Norberto Araújo, nas suas Peregrinações em Lisboa) e a merecer uma despedida à Philip Marlowe, o detetive de Chandler: “Até logo, amigo. Não vou dizer adeus. Disse-o quando era triste, solitário e final.”