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Azeitão: Entre doces e vinhos se faz este caminho

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Prova-se Moscatel, tortas, esses e queijo amanteigado. Admiram-se os palácios e passeia-se nas vinhas das quintas. Do passado a preservar ao que há de novo na vila, assim se descobre Azeitão. Com os olhos sempre postos na serra da Arrábida

Luís Barra

Luís Barra

Repórter Fotográfico

Em Vila Fresca de Azeitão, fica o Palácio e Quinta da Bacalhôa, monumento nacional dos séculos XV e XVI, com uma importante coleção de azulejos, jardim de buxos e casa de fresco

Em Vila Fresca de Azeitão, fica o Palácio e Quinta da Bacalhôa, monumento nacional dos séculos XV e XVI, com uma importante coleção de azulejos, jardim de buxos e casa de fresco

Luís Barra

Sem trânsito, e a partir de Lisboa, chega-se a Azeitão em pouco mais de meia hora. Vila do distrito de Setúbal, nas faldas da serra da Arrábida, fica a cerca de 40 quilómetros da capital e é sobejamente conhecida pelos seus produtores de vinhos, pelos seus palácios e quintas brasonadas e, claro, pelo seu queijo, esses e tortas.

No nosso caso, a chegada faz-se de carro, através da Nacional 10. É essa a estrada que nos leva até Vila Nogueira de Azeitão, o coração de uma zona mais abrangente que inclui outras localidades como Oleiros, Aldeia dos Irmãos, Aldeia Grande e Vila Fresca de Azeitão, todas elas bons motivos para o passeio. É quarta-feira e anda-se à-vontade. Mais gente só há de chegar, dizem-nos, no fim de semana. Aos sábados e domingos Azeitão transforma-se, com as famílias às compras pelo comércio de rua e os autocarros cheios de turistas, de visita às adegas e à procura das célebres tortas e esses de Azeitão.

À Praça da República, chamam-lhe Rossio. É aí que, no mesmíssimo sítio onde durante anos e anos funcionou uma bomba de gasolina, há agora um novo passeio em granito. Um enorme cacho de uvas faz de fonte e recorda-nos que estamos em terra de (bons) vinhos. Mais interessante é o Palácio dos Duques de Aveiro, numa das laterais da praça. Trata-se de um edifício quinhentista, classificado como imóvel de interesse público, embora, hoje, esteja muito degradado. A história diz-nos que aqui chegou a estar instalada a primeira fábrica de chitas portuguesa, a funcionar a partir de 1775 e até 1847. A praça é ampla, tem árvores e relva, e, não muito longe, fica a estátua de Sebastião da Gama, “poeta da Arrábida”, nascido na vila em 1924.

Os lavadouros municipais foram recuperados e, agora, o local acolhe a loja, café e bar Sabores & Encantos de Azeitão

Os lavadouros municipais foram recuperados e, agora, o local acolhe a loja, café e bar Sabores & Encantos de Azeitão

Luís Barra

A lenda da Fonte dos Pasmados
Seguimos a pé até à artéria principal de Azeitão, a Rua José Augusto Coelho, onde se concentra a maior parte do comércio da vila assim como o que de melhor a região tem: artesanato, doces, queijos, vinhos... Há surpresas: os Lavadouros Municipais foram, recentemente, recuperados. O edifício fica logo à entrada da rua, ao lado da Igreja de São Lourenço (visitável em dias festivos e de culto). Ainda lá estão os tanques de água limpa e fresca, mas, claro, já ninguém lá lava roupa. Pode dizer-se que as lavadeiras foram substituídas pela Lavadeira de Azeitão, uma peça de artesanato da autoria de Maria Pó (€28,50), à venda na Sabores e Encantos de Azeitão, a cafetaria/loja gourmet dos Lavadouros. Florinda Fernandes, uma das funcionárias, explica a carta: café, sumos, saladas e tostas, como a de queijo de Azeitão e presunto, para uma refeição ligeira, ao som da água que entra nos tanques. Aos sábados à noite, há música ao vivo nos Lavadouros e, aí, quem aqui vem pede caipirinha, mojito ou o gin.

Do outro lado da rua, também corre água. É a Fonte de Pasmados, amarela e azul, mandada erigir no século XVIII. E reza a lenda que “quem desta água beber ficará para sempre ligado a Azeitão”. O passeio prossegue até ao renovado Mercado Municipal. “Foi inaugurado no 1º de Maio”, explica Emanuel Durães, 62 anos, na sua banca de florista. O mercado é um edifício pequeno, com azulejos coloridos com representações de legumes e animais, numa referência aos produtos à venda nas bancas – talho, peixaria, legumes, fruta e produtos tradicionais (sim, tem queijo de Azeitão). Os clientes contam-se pelos dedos de uma mão, ao fim de semana o movimento melhora um bocadinho. “A abertura de grandes superfícies, aqui próximo, tem levado os clientes”, queixa-se Emanuel Durães que, além das flores, também vende os chás da Amor à Terra, produzidos na Arrábida, e as conservas La Gondola.

Do Alface à Casa Negrito
Ao longo da rua, de lojas de roupa a um ourives, existem vários negócios. Mais adiante, somos surpreendidos por uma fachada pintada com graffiti e uma instalação com a forma de animal. O edifício é o do antigo Cine-Teatro Vitória Azeitonense, encontra-se fechado, mas lá dentro esteve, até meados de agosto, uma exposição de 17 artistas. Um deles, Filipe Acciaioli, tem ateliê aberto umas portas ao lado. De origem madeirense, Filipe mudou-se há alguns anos para Azeitão. Há dois anos que pinta de porta entreaberta, “episódios históricos que ainda não tenham sido retratados”, explica. Vale a pena, garantimos, espreitar. É a porta do toldo amarelo, que é do tempo em que ali funcionou um snack-bar.

Na pastelaria Cego, José Pinto diz-se boleiro e não doceiro porque só sabe trabalhar seguindo as receitas que herdou do pai

Na pastelaria Cego, José Pinto diz-se boleiro e não doceiro porque só sabe trabalhar seguindo as receitas que herdou do pai

Luís Barra

Ainda estamos na Rua José Augusto Coelho. E é ao lado da Igreja da Misericórdia, agora em obras, que encontramos o Cego, a pastelaria mais antiga de Azeitão. Nascida em 1901, é conhecida pelos seus esses e tortas, mas também pela delícia de Moscatel, mimos (doce de ovos, massa filo e amêndoa torrada) e memés (feitos com requeijão de ovelha). Todos recriados por José Pinto, 53 anos, a partir de receitas antigas. Há 42 anos que José Pinto está no negócio, herança do pai, que comprou a pastelaria Cego à família fundadora. Diz-se boleiro e não doceiro porque não aprendeu o ofício, explica. A pastelaria é um êxito, vêm clientes de todo o lado e, no fundo, acaba por funcionar como chamariz, levando quem visita Azeitão, pelo menos, até ao meio da rua. “A partir daqui as pessoas já não vão”, comenta José Pinto.

A vila também tem outras casas que vendem doçaria regional e outras especialidades da zona, como queijo de Azeitão. Regressamos, por isso, à Praça da República, onde fica uma das obrigatórias, a Casa das Tortas. Fundada em 1910, mantém os armários antigos e o balcão de pedra originais. Funciona como pastelaria e restaurante, com uma sala ao ar livre, de aspeto improvisado, onde se come, sobretudo, carne e peixe grelhados. A meia dúzia de passos, a Pedaços de Azeitão: A Loja do Queijo e A Loja das Tortas dividem a mesma área e, nas montras refrigeradoras, há vários queijos (para comer aqui, servidos em tábuas, ou para levar para casa) e doces como as trouxas de Moscatel e amêndoa. Também vende vinho e artesanato português (têm graça, os bacalhaus de cerâmica pendurados na montra).

Mais à frente, perto da Fonte dos Pasmados, entramos na Casa Negrito, no mesmo sítio onde esteve o antigo Alface, uma casa de pasto modesta. “Somos uma casa conhecida pela pastelaria”, diz Maria do Céu Marques, a proprietária e responsável, por entre queijadas de pinhão ou bolas de Berlim recheadas com o doce de ovo das tortas. A Casa Negrito possui ainda uma zona de queijaria, a charcutaria, o restaurante e a esplanada ao ar livre.

Na sala da Adega dos Teares Velhos, na José Maria da Fonseca, guardam-se os moscatéis mais antigos da Península de Setúbal

Na sala da Adega dos Teares Velhos, na José Maria da Fonseca, guardam-se os moscatéis mais antigos da Península de Setúbal

Luís Barra

Os azulejos que encantam Louboutin
É tempo de vindima e, em Azeitão, isso é sinónimo de muito trabalho. Existem vários programas de enoturismo, sendo possível visitar as adegas da maior parte dos grandes produtores. A José Maria da Fonseca é um ícone, e tem a casa-museu na rua principal de Vila Nogueira de Azeitão. Sofia Soares Franco, um dos elementos da sétima geração da família, dá-nos a conhecer os 180 anos de história da empresa proprietária da mais antiga marca de vinhos portugueses, a Periquita. “Nas visitas que fazemos, mostramos mais a nossa história, a história da empresa mas também a história da família. Aqui não se mostram cubas de inox”, afirma.

Seguimos de carro até Vila Fresca de Azeitão, para ver o Palácio e Quinta da Bacalhôa, monumento nacional com a sua conhecida coleção de azulejos, jardim de buxos, casa de fresco e respetivo lago. A visita à Bacalhôa faz parte de um programa mais alargado que pode incluir passagem pela adega e pelas duas exposições de arte da Quinta da Bassaqueira, a sede da Bacalhôa, em Vila Nogueira de Azeitão, junto à Nacional 10. Ainda em Vila Fresca, é de entrar na fábrica Azulejos de Azeitão. Daqui saíram, em 2014, os 12 mil azulejos de uma igreja em Libreville, no Gabão. E também os escolhidos pelo designer francês Christian Louboutin, para decorar a sua casa na Comporta. “Quando Louboutin aqui chegou, nem o reconhecemos”, conta Alexandre Oliveira, funcionário da casa e irmão de um dos sócios. Nesta fábrica e loja produzem-se azulejos em faiança, segundo três técnicas: majólica, aresta e corda seca. Mais interessante que as celebridades, é o processo de fabrico – da argila à pintura e à vista de todos os que queriam vir espreitar.

É também na Nacional 10 que se apanha a estrada dos Picheleiros, bonito percurso serpenteante, sempre com a serra ao fundo. Em Aldeia Grande, na Rua do Alto das Necessidades, fica a Quinta de Alcube, produtores de vinhos e turismo rural no Parque Nacional da Arrábida. Merece tanto a paragem que nós, se pudéssemos, aqui teríamos ficado.

Dos supermercados às pastelarias, na vila, há tortas por todo o lado

Dos supermercados às pastelarias, na vila, há tortas por todo o lado

Luís Barra

Palácio dos Duques de Aveiro Pç. da República, Vila Nogueira de Azeitão

Casa Nobre de Azeitão Restaurante com carne e peixe na grelha, pratos de caça, e ainda, por encomenda, caldeirada à Setubalense ou massa de sapateira. Pç. da República, 8, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 218 3458 > qui-ter 12h-15h, 19h-23h

Museu Sebastião da Gama Inaugurado em 1999, o museu integra não só o espólio bibliográfico, mas também alguns objetos do poeta nascido na vila. R. de Lisboa, 11, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 218 8398 > ter-sex 9h-12h30, 14h-17h; sáb 11h-13h, 14h-19h > €1,50

Casa das Tortas Pç. da República, 37, Vila Nogueira de Azeitão > T. 96 914 6996 > ter-dom 7h-24h

Pedaços de Azeitão Pç. da República, 33-34, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 218 0084 > qua-seg 8h-20h

Igreja de São Lourenço R. José Augusto Coelho, 1, Vila Nogueira de Azeitão

Sabores e Encantos de Azeitão Lavadouros de Azeitão, R. José Augusto Coelho, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 218 8485 > seg-dom 8h-1h

Via Idea Até 8 de setembro, a galeria de arte tem patente a exposição Color Spread, de Alexa Jesus. R. José Augusto Coelho, 10, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 219 1647 > qua-qui 12h-19h30, sex 12h-20h30, sáb-dom 11h-20h30

Fonte dos Pasmados R. José Augusto Coelho, Vila Nogueira de Azeitão

A José Maria da Fonseca é um ícone, e tem a casa-museu na rua principal de Vila Nogueira de Azeitão

A José Maria da Fonseca é um ícone, e tem a casa-museu na rua principal de Vila Nogueira de Azeitão

Luís Barra

José Maria da Fonseca As visitas guiadas têm início na sala-museu, passam pelo jardim, Adega da Mata (vinho Periquita), Adega dos Teares Novos e Adega dos Teares Velhos (onde estão os moscatéis mais antigos). Terminam com uma prova de vinhos na loja. R. José Augusto Coelho, 11-13h, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 219 8067 > visitas: 10h-12h, 14h30-17h30 (abr-out); loja: 10h-19h (abr-out) > a partir de €3

Casa Negrito R. José Augusto Coelho, 26, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 219 7027 > seg-dom 8h-23h

Mercado Municipal R. José Augusto Coelho, Vila Nogueira de Azeitão

Florista Cato R. José Augusto Coelho, 37 B, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 218 0049 > seg-sáb 9h-19h, dom 10h-13h

Cine-Teatro Vitória Azeitonense R. José Augusto Coelho, 85, Vila Nogueira de Azeitão

Ateliê Filipe Acciaioli R. José Augusto Coelho, 101, Vila Nogueira de Azeitão

Pastelaria Cego R. José Augusto Coelho, 150, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 218 0301 > qua-seg 8h-23h

Igreja da Misericórdia Construída no século XVII, incluía hospital e casa da igreja, ambos demolidos no século XIX. R. José Augusto Coelho, Vila Nogueira de Azeitão

Bacalhôa (sede) – Quinta da Bassaqueira Além de funcionar como sede da empresa produtora de vinhos, é aqui que está instalado o museu. Disponibiliza vários tipos de visitas que podem incluir passagem pelo Palácio e Quinta da Bacalhôa. EN 10, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 219 8067 > visitas: 10h30, 11h30, 14h30, 15h30, 16h30; loja 10h-18h > a partir de €3

Palácio e Quinta da Bacalhôa EN 10, Vila Fresca de Azeitão > T. 21 219 8067 > visitas: seg-sáb 10h30, 11h30, 14h30, 15h30, 16h30 > a partir de €3


O Forno da Vila Pastelaria e padaria com fabrico próprio. R. José Augusto Coelho, 39-43, Vila Nogueira de Azeitão > T. 21 218 1588 > qui-ter 7h-20h

Azulejos de Azeitão R. dos Trabalhadores da Empresa Setubalense, 15, Vila Fresca de Azeitão > T. 21 218 0013 > seg-sex 9h-19h, sáb-dom 10h-18h

Mercadores de Memórias Decoração e mobiliário. R. dos Trabalhadores da Empresa Setubalense, 6, Vila Fresca de Azeitão > T. 21 218 0597 > ter-dom 10h-13h, 14h-19h

Igreja de S. Simão Igreja do século XVI, fica paredes meias com o Palácio e Quinta da Bacalhôa. Destaque para os azulejos no interior. R. da Sociedade Filarmónica Previdência, Vila Fresca de Azeitão

Quinta de Alcube Realiza várias visitas guiadas com provas. Inclui turismo rural com três casas: a Moscatel, a Trincadeira e a Castelão (a partir de €81,20). R. do Alto das Necessidades, 93, Aldeia Grande > T. 21 219 1566 > seg-sáb 10h30-12h30, 15h-17h30; loja 9h-13h, 14h-18h; sáb-dom 10h-13h, 15h-18h > a partir de €5


Capela de São Sebastião Lg. de São Sebastião, Aldeia de Irmãos

Casa dos Caracóis Só funciona durante a época do caracol, altura em que a especialidade pode ser degustada no restaurante ou, se preferir, levar para casa. R. João Vaz, Lt. 94, Brejos de Azeitão > T. 21 181 9235 > seg-dom 15h-23h (durante a época do caracol)

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    Sair

    Entre tortas, queijos e provas de Moscatel, espreitam-se as vinhas das quintas e os palácios abrasonados. Do passado a preservar ao que há de novo na vila, assim se descobre Azeitão. Próximo da Arrábida e a pouco mais de meia hora de Lisboa, é o destino que está na capa da VISÃO Se7e desta semana, esta quinta-feira nas bancas